CONTOS


EPILEPSIA

“Um escritor de talento”.
Carlos gostava de pensar em si mesmo como um escritor de talento. As pessoas próximas concordavam, em maior ou em menor grau, mesmo àqueles que não leram nenhuma linha do que ele escrevia. Esses consideram que um escritor de talento se define pela atitude. E Carlos tinha muita atitude, muita mesmo.
Embora Carlos fosse talentoso, isso não quer dizer que ele era um escritor genial. Aliás, pelo menos nisso, eu e o Luiz concordamos, embora nossas concepções sobre a genialidade sejam bem diferentes uma da outra. A genialidade pra ele é um Camaro amarelo; pra mim, uma Lambourguini Veneno, muito mais rara e difícil de se encontrar.
Na Faculdade, Carlos teve um ótimo desempenho. Dedicou-se integral e intensamente, foi aluno exemplar, querido por quase todos os professores. Lia todos os textos e participava ativamente das aulas. Durante os intervalos, normalmente, permanecia na sala de aula lendo um clássico, sugerido por um professor que nunca lia o que indicava.
Nas poucas vezes que deixava a sala de aula durante o intervalo era para, sob algum pretexto, ir à sala dos professores tomar um café. Nessas ocasiões, sentado à mesa, bem à vontade, como se fizesse parte daquele universo, fazia-se ouvir, mais pelo timbre da sua voz – grave e nítida – do que pelo conteúdo de sua fala, que não despertava lá grande interesse:
– Entre Dostoievski e Tolstoi, prefiro Dostoievski, por ser mais realista e psicologizar. Entre Machado e Lima Barreto, prefiro Machado, por psicologizar mais e por ser cínico e menos revoltado. Entre Goethe e Suassuna, prefiro Suassuna, por ter criado um personagem mais astucioso que o próprio diabo – e ria satisfeito consigo, acreditando ter dito alguma coisa ao mesmo tempo inédita e profunda.
Carlos concluiu o curso apresentando e defendendo uma monografia que tratava das Semelhanças estéticas e aspectos psicológicos nas obras de Dostoieviski e Machado, que, diga-se de passagem, foi aprovada sem correções e indicada à publicação, que infelizmente nunca aconteceu. Carlos formou-se com louvor. Foi o orador de sua turma. No final de seu discurso, proferido na cerimônia de formatura, no auge do seu entusiasmo e da sua eloquência, Carlos assim se expressou:
 – Acredito que cada um de nós – formandos de Letras - da turma Gustave Flaubert – estamos aptos, graças à dedicação de nossos estimados mestres, a galgar aos mais altos postos da carreira acadêmica ou aos mais altos degraus da carreira literária, dependendo da vocação que cada um sinta pulsar dentro de si. Tenho certeza que essa turma contém, em germe, escritores consagrados, acadêmicos altamente patenteados e profissionais diversos, eminentemente gabaritados. Estou certo de que os membros da turma Gustave Flaubert ainda vão ser motivo de orgulho para nossa cidade, para o nosso estado e, quiça, para o nosso país. Viva a turma Gustave Flaubert!
Formado, Carlos dedicou-se à carreira literária, pois sentia em si uma vigorosa efervescência literária prestes a eclodir, no entanto, gostava da ideia de compartilhar seu conhecimento e de certa forma demonstrar o amor que sentia pela literatura. Por isso, decidiu dividir-se entre a carreira literária e o magistério, pelo menos enquanto não fosse um escritor consagrado. Aliás, há alguns meses já vinha trabalhando em seu romance de estreia, convicto de que seria um sucesso, uma unanimidade tanto diante do público leitor, quanto de crítica.
Durante dois anos Carlos trabalhou naquele romance. Nas horas vagas, nas horas mortas, nos finais de semanas e nas férias, Carlos só pensava no romance. Literária Mente era o título. Era a história de um sujeito chamado Literato, obcecado por literatura, respirava literatura, pensava literatura, comia literatura, bebia literatura e falava de literatura. O curioso e o inusitado – e que de fato exigiu de Carlos um enorme esforço na elaboração do romance – é que todas as falas do personagem eram citações ou falas de personagens extraídas dos clássicos. Por exemplo, na fala que encerra o romance Literato declarava: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.
Carlos ofereceu seu romance a algumas editoras, as maiores desvencilhavam-se dele afirmando que analisariam o trabalho e posteriormente entrariam em contato; as menores afirmavam que não tinham recursos para editarem por conta própria, que só editavam sob encomenda; as medianas propunham contratos abusivos em que os autores deveriam arcar com setenta por cento dos custos e abdicar cinquenta por cento dos direitos autorais.
A ansiedade de estrear no universo das letras, de ver seu livro publicado e, como consequência óbvia (para ele), ter seu nome consagrado, Carlos firmou contrato com uma dessas editoras medianas, mas sem expressão. Durante três meses, acompanhou de perto, passo a passo, a confecção de seu livro. Nesse intervalo de tempo, Carlos aproveitou para promover o lançamento do seu livro nas redes sociais, nos clubes literários, nas faculdades, nas escolas e nas livrarias, além disso, cuidou dos detalhes do evento, para que nada saísse errado.
No dia do lançamento do seu livro, Carlos estava radiante, tudo correu perfeitamente. O auditório do Clube Literário, do qual Carlos fazia parte, estava lotado. Além de familiares, de amigos pessoais, dos companheiros de trabalho, de alunos, de colegas e professores da turma Gustave Flaubert, aquela assembleia contava ainda com a participação de três críticos literários e de diversos escritores: muitos medíocres, alguns esforçados, pouquíssimos talentosos e apenas um consagrado. Este, de passagem pela cidade, resolveu dar o ar de sua graça – visto não haver nada melhor pra fazer naquela noite – com o propósito exclusivo de ser bajulado e ter seu ego acariciado.
O evento foi um sucesso. Os livros vendidos quase cobriram os custos da publicação. Carlos acordou tarde e satisfeito, saiu para comprar o jornal e ver se havia alguma nota sobre o lançamento do seu livro. Não encontrou nenhuma. No dia seguinte também não, nem no terceiro dia após o lançamento. Carlos achou estranho, mas deu de ombros.
– Afinal, eventos literários não são dignos de concorrer com os eventos da high society. Além disso, o importante são as críticas que hão de ser publicadas nos próximos dias – pensava Carlos, justificando aquela indelicadeza por parte da imprensa e consolando-se com essa ideia.
 No entanto, o que era pra ser seu consolo tornou-se seu tormento. Passaram-se dez dias, e nem uma crítica; três semanas e ainda nada; um mês e nenhuma linha. A princípio, Carlos justificou para si aquela negligência dos críticos atribuindo-a ao encerramento do ano letivo, afinal, muitos críticos eram professores acadêmicos e deveriam estar atarefadíssimos naquele momento.
À medida que as semanas foram passando, e se acumulando, e convertendo-se em meses, e que um absoluto silêncio insistia em pairar sobre seu livro e o anonimato, sobre seu nome, e não conseguindo mais justificar aquele desprezo para com seu livro, Carlos gradativamente foi perdendo as esperanças e tornando-se taciturno, meio sombrio, meio depressivo. Seus pais perceberam essa mudança, mas acreditavam que se tratava de alguma desilusão amorosa.
Carlos, então, saia de casa apenas para ir ao trabalho, encarando-o como seus colegas encaravam: como um ganha-pão e não mais como um projeto de vida, um tributo a se prestar. Deixou a literatura de lado e passou a se interessar e ler sobre neurologia e psiquiatria. Mais ou menos dois meses depois do lançamento de seu livro, Carlos comprou três livros sobre esses assuntos: “Compêndio sobre doenças neurológicas”, “Tratado de Neurologia” e “Aspectos Psiquiátricos das Doenças Neurológicas”, dos quais, em casa, não se afastava desde então.
Carlos permaneceu em seu ostracismo voluntário por cinco meses, vinte e sete dias e treze horas, até que um dia foi convidado (e aceitou) a expor seu livro numa grande Feira Literária, que contaria com a participação de escritores de expressão nacional. No dia marcado, na parte da tarde, Carlos cortou o cabelo e se barbeou. No começo da noite, tomou um banho demorado, vestiu sua melhor roupa, se perfumou, e antes de sair, olhou-se no espelho e sorriu, orgulhoso de si, sentindo-se a atração principal do evento.
Durante a cerimônia de abertura, permaneceu discreto no lugar que lhe fora reservado, na terceira fila, atrás das autoridades e dos escritores renomados. Ao final da cerimônia de abertura, os escritores participantes, inclusive Carlos, foram convidados a subir ao palco para tirarem a foto oficial do evento. Naquele momento, Carlos esquivou-se das cerimonialistas e, imiscuindo-se, postou-se na primeira linha, ao lado dos escritores consagrados.
Os fotógrafos, acotovelando-se, colocaram-se a postos, diante do palco, aguardavam apenas a saída das cerimolialistas para dispararem seus flashes. Assim que as cerimonialistas deixaram o palco, uma sequência de flashes teve início e durou uns vinte segundos. Quando os fotógrafos já se preparavam para a segunda bateria de fotos, Carlos desabou diante de todos em uma crise convulsiva, semelhante a uma crise epiléptica.
Imediatamente, algumas pessoas acorreram para prestar-lhe assistência. Um médico se apresentou e assumiu a coordenação dos primeiros socorros. Gradativamente a crise foi arrefecendo e Carlos recobrando a consciência. Ainda meio atordoado, parecendo não entender o que havia acontecido, Carlos se viu cercado de cuidados e de atenções, que se prolongaram e intensificaram enquanto permaneceu no evento.
Amparado por outros escritores, Carlos levantou-se, afirmando que se sentia melhor e que gostaria honrar seu compromisso, indo para a mesa que lhe reservaram expor seu livro. Como se nada tivesse acontecido, Carlos passou a noite atendendo a todos com cordialidade, agradecendo-lhes a solicitude e dizendo-lhes com bom humor:
– Garanto que aquele mal súbito não há de ser nada sério nem grave, mas, de qualquer forma, procurarei um médico amanhã, a fim de fazer um check up. Portanto, tranquilizem-se e vão se acostumando com a ideia de serem obrigados a me aturar por muito tempo ainda – dizendo isso, ria e, nisso, era acompanhado pelos que estavam ao seu redor, admirados da serenidade com que aquele homem encarava seu problema.
No dia seguinte, cientes dos acontecimentos da véspera, os pais de Carlos acompanharam-no a uma consulta médica. Informado das características da crise que Carlos sofrera, o neurologista solicitou uma batelada de exames, marcando para a semana seguinte o retorno para analisar os resultados dos mesmos e dar um diagnóstico mais preciso, mas suspeitava, considerando as características da crise, que Carlos sofria de epilepsia.
Dito isso, o médico procurou tranquilizar Carlos e seus pais, afirmando que a Neurologia havia avançado bastante nos últimos anos no que se refere ao estudo e ao tratamento da epilepsia. Assim, caso o diagnóstico fosse confirmado, garantia que com a intervenção medicamentosa precisa e com os tratamentos apropriados Carlos teria uma vida praticamente normal. Depois dessa explicação tranquilizadora, Carlos e os pais deixaram o consultório médico. Aparentemente, Carlos estava mais tranquilo que seus pais.
Uma semana depois, enquanto aguardava sua vez na sala de espera do consultório médico, Carlos regozijava-se relendo, talvez pela centésima vez, uma crítica extremamente elogiosa sobre seu livro – Literária Mente – e sobre sua personalidade. A crítica havia sido publicada na véspera e estava assinada por um dos mais importantes críticos da região: Ângelo Saldanha.
Quando abriu a porta de seu consultório para despedir-se de um paciente e ao mesmo tempo convidar Carlos para entrar, o médico percebeu que ele lia o jornal compenetrada e prazerosamente. Ao ouvir seu nome ser chamado, Carlos dobrou o jornal com cuidado, pegou um envelope grande e volumoso que estava ao seu lado, estampou um largo sorriso no rosto e caminhou para o consultório.
Ao cumprimentar Carlos, o médico exclamou:
– Vejo que alguma notícia o agradou bastante.
– O senhor não imagina quanto doutor. Ontem foi publicada uma crítica bastante elogiosa a respeito do meu livro e isso me deixou muito contente. No momento em que o senhor me chamou eu estava relendo a crítica. A propósito, trouxe para o senhor um exemplar do meu livro e uma cópia da crítica, para o senhor passar os olhos, quando tiver um tempinho. Aqui estão.
– Muito obrigado! – agradeceu o médico – Fique certo de que vou ler com muito prazer. Mas, por ora, vamos falar do que te trouxe aqui. Antes de ontem o laboratório me enviou seus exames, analisei cada um deles detalhadamente e mais de uma vez. E devo te confessar que até agora o seu caso é um mistério para mim, pois não consegui identificar o motivo de sua convulsão. Seus exames não apresentaram absolutamente nenhum dos traços característicos da epilepsia. Mas não se preocupe, vou solicitar alguns outros exames, consultarei outros médicos amigos meus, continuarei investigando, não vou descansar enquanto não identificar a causa da sua convulsão – disse o médico com convicção.
– Tudo bem, doutor. Tenho plena confiança em sua capacidade, sei que senhor vai descobrir o motivo daquela convulsão – afirmou Carlos tranquilamente, esboçando um sorriso malicioso e levantando-se para deixar o consultório – De qualquer forma – continuou Carlos estendendo a mão ao médico –, desde já, agradeço sua dedicação e seu esforço no sentido de me ajudar.
Depois disso, o médico acompanhou Carlos até a porta, entregou-lhe a solicitação de novos exames e despediu-se dele, seguindo-o com o olhar até a saída. A calma que Carlos demonstrou diante da incerteza do seu diagnóstico, a leveza com que Carlos lidava com aquele problema intrigou o médico, que, naquele momento, o considerou um sujeito diferente, digno de admiração.
Com esse pensamento o médico chegou à sua mesa, sentou-se, e baixando os olhos viu sobre a mesa o envelope que Carlos lhe entregara. Tirou de dentro do envelope o livro e a cópia da crítica que Carlos havia mencionado. Folheou o livro de trás para frente, detendo-se ligeiramente, numa e noutra página, aleatoriamente. Pegou a folha que continha a crítica e começou a ler meio distraído. De repente, quase no fim da crítica, deparou-se com uma passagem que lhe chamou a atenção e que, de alguma forma, parecia desafiá-lo.
Levantou-se, andou de um lado para o outro, bebeu um pouco d’água, parou diante da janela, olhou para fora e ficou pensando por alguns segundos.
Voltou para sua cadeira, pegou novamente a crítica e releu a seguinte passagem:
“Estou certo de que se o leitor, que deve estar ansioso por folhear e conhecer o livro Literaria Mente, o ler com ânimo repousado, com vista simpática, justa, reconhecerá que é um livro de estréia, incerto em partes, com as imperfeições naturais de uma primeira produção. Mas não se envergonhe o autor das imperfeições, nem se vexe de as ver apontadas; agradeça-o antes. A modéstia é um merecimento. Poderia lastimar-se se não sentisse em si a força necessária para emendar os senões inerentes aos trabalhos de primeira mão. Mas será esse o seu caso? Há no seu romance uma espontaneidade de bom agouro, uma natural simpleza, que a arte guiará melhor e a ação do tempo aperfeiçoará ”.
“Além disso, é importante ressaltar que o livro Literaria Mente reflete a força do seu autor, sua determinação, seu compromisso para com a literatura, mesmo diante da adversidade, da dor. Dor que se manifestou e que foi vencida diante de um auditório repleto. Dor que estabelece uma ligação entre o autor de Literaria Mente e autores universalmente consagrados como Dante, Dostoievski, Machado, Flaubert, Moliere, Dickens, Tolstói, Byron, entre outros. Dor que Carlos e esses autores consagradíssimos suportaram e venceram, e que atualmente recebe o nome de epilepsia”.
Instigado pela crítica – instigar, aliás, deveria ser a função de todas as críticas – o médico sentiu vontade de ler o livro. Leria sim, quando tivesse tempo. Em breve, em breve. Clinicar toma tempo. Quem sabe viesse a ter um paciente ilustre. Deveria se preparar para conversar com ele sobre coisas profundas, literatura, arte, alta cultura. 
Voltou a folhear o livro de Carlos. Não sabia, mas justamente na página em que abriu havia um trecho que era ao mesmo tempo uma criação literária, metalinguagem, recriação, citação e diagnóstico. Leu distraidamente e deixou passar o fator médico, só se sentido orgulhoso do próprio verniz de erudição por ter conseguido reconhecer a citação:

“O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente”.





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O SAPATO
         
Numa sexta-feira 13, era maio de 2011 – informo a data para que algum leitor mais perspicaz, mais supersticioso ou mais esotérico que eu consiga extrair alguma significação que me escapa – eu e meu amigo Augusto caminhávamos tranquilamente para o nosso trabalho, quando um homem (aproximadamente trinta e cinco anos, vestindo farrapos, extremamente sujo e fedido, aparentemente com problemas mentais e muito provavelmente morador de rua) que vinha na mesma calçada mas na direção oposta parou a uns três metros à nossa frente, tirou o sapato do pé direito, o deixou lá no meio da calçada e continuou a caminhar, passou por nós e seguiu o seu caminho sem olhar para trás nenhuma vez.
          Paramos, olhamos para o sapato, olhamos para homem, nos olhamos procurando alguma explicação; demos mais alguns passos e novamente olhamos para o homem e para o sapato e de novo olhamos para o homem, que já dobrava a esquina. Por alguns instantes ficamos ali parados olhando para o sapato e para a esquina, talvez esperando que o homem voltasse e buscasse seu sapato, mas ele não voltou!!!
    Depois de alguns poucos segundos, olhei para o Augusto, que parecia ruminar aquela cena, com uma expressão meio atarantada, Augusto olhou para mim, talvez procurando uma explicação. De minha parte, naquele momento eu não teria sido capaz de oferecer qualquer explicação para cena que havíamos presenciado. Por fim, demos de ombros e seguimos nosso caminho em direção ao trabalho.
Trabalhávamos numa escola. Eu como professor de História e Augusto como professor de Sociologia. Com muita dificuldade consegui me concentrar para ministrar as minhas quatro aulas daquele dia, pois a cena do homem do sapato ou do sapato do homem - aquele silencioso e perturbador discurso - não me saía da cabeça nem da retina.
Por volta das onze horas da manhã eu já estava dispensado das minhas atividades de professor, ao menos temporariamente, porque eu ainda teria que ministrar naquele mesmo dia as três primeiras aulas do período noturno. Fui para casa. O Augusto ainda ficou na escola, porque ainda teria que dar – ou como ele preferia dizer, vender – aulas nos dois últimos horários.
Almocei assistindo ao esporte, hábito que tenho desde criança, mas, entre um gol e outro, lá estava o sapato e o homem. Depois de tomar um banho, resolvi fazer a sesta. Peguei um livro que eu já estava lendo há algum tempo – Mistério de Lisboa, de Camilo Castelo Branco – e fui pra cama... em vão... nem livro nem sono. Não conseguia me concentrar na leitura nem parar de pensar naquela cena para que o sono viesse. Desisti de ler e também de dormir.
Então resolvi refletir e tentar extrair um significado ou uma explicação para aquele episódio que havia acontecido por volta das sete da manhã. Passei a tarde recapitulando aquela cena e refletindo sobre ela: o homem vindo em nossa direção, tirando o sapato e abandonando-o em nossa frente e seguindo sempre em frente como se nada tivesse acontecido.
Escutei um barulho no portão, certamente era minha mulher que chegava, quando olhei no relógio já eram dezenove horas e certamente eu chegaria atrasado para minha primeira aula. Liguei para o colégio, inventando uma desculpa qualquer e pedindo que entretivessem meus alunos, pois eu já estava a caminho.
– Atrasado de novo, não é Felipe? Aposto que dormiu a tarde inteira e não lavou sequer o próprio prato em que comeu. Eu não tenho vocação para ser sua escrava Felipe; não aguento mais isso...
– Eu também te amo, meu amor, só que, como você mesmo disse, estou um pouco atrasado pra gente se amar agora. Se quiser, Daniela, mais tarde a gente se fala, beijo – fui em direção a ela com o propósito de dar um beijo apaziguador, mas, como já era costume nos últimos tempos, ela me repeliu asperamente. 
Ao chegar à escola, fui recebido por um olhar nada amigável do diretor, fingindo ignorar aquela repreensão me dirigi direta e imediatamente para turma que me aguardava, o segundo ano do ensino médio. Não se pode dizer que meus alunos estavam ansiosos pela minha chegada. Aliás, a minha chegada quase interrompeu uma partida de truco, que acontecia sobre a minha mesa.
– Podem terminar a partida, eu espero – anunciei tranquilamente, lembrando o olhar de censura que há pouco eu havia recebido do diretor. A essas pequenas vinganças ou revanches Augusto dava o pomposo nome de Microfísica do Poder.

Por volta das nove e meia da noite eu já tinha ministrado as três aulas e estava livre. Livre do trabalho, não da cena. Lembrei que era sexta-feira, meu dia predileto da semana, e resolvi ligar para o Augusto:
– Qual é, meu irmão; você tá ocupado aí?
– Não, cara, tô tranquilo pode falar, na verdade, eu já ia te ligar.
– Então, tá a fim tomar umas cervas ali no Pau Brasil e trocar umas ideias? – perguntei sem cerimônia.
  – Bora nessa! Eu ia te ligar justamente pra te fazer a mesma proposta – respondeu Augusto, naquele tom de camaradagem que só existe nas verdadeiras amizades.
– Então tá combinado, meu irmão, a gente se encontra lá por volta das onze – concluí, esperando só a confirmação de Augusto.
– Fechado! A gente se vê lá, abraço – confirmou Augusto.
– Valeu! – eu disse, desligando o telefone.
Fui para casa tomar um banho, trocar de roupa, comer alguma coisa e saber se a Daniela gostaria de tomar suas vodcas com soda e dar uma espairecida. No caminho, eu ainda pensava na história do sapato, porém, com menos intensidade – a Esfinge fechara a sua boca e recuava –, porque eu já tinha conseguido tranquilizar um pouco meu cérebro com uma interpretação plausível e até provável para aquela cena.
Chegando em casa encontrei a Daniela com a cara amarrada, assistindo sua novela e nada disposta a conversas. Tentei brincar, em vão. Tentei acariciar, também em vão. Preparei um lanche e fui comê-lo na sala, ao lado dela e diante da televisão.
– Por acaso você pode fazer o favor de ir comer na cozinha, você vai sujar a casa toda com essas migalhas de pão – me repreendeu Daniela, assim que sentei no sofá, e como eu não estava disposto a discutir, levantei resignadamente, sem proferir uma só palavra e fui comer na cozinha.
Assim que terminei o lanche, voltei à sala para saber se Daniela gostaria de sair para se divertir um pouco. Esperei o comercial e então perguntei:
– E aí, Dani, você quer sair pra tomar umas vodcas e dar uma desestressada?
– Quem te disse que eu tô estressada? – respondeu ela rispidamente.
– Não, meu amor, é maneira de falar, só estou querendo saber se você não gostaria de sair pra se divertir um pouco – tentei amenizar e esclarecer.
– Não, obrigada! Aposto que você tá pensando em ir naquele bar barulhento que só toca rock, faz tempo que não suporto mais esse tipo de música. Prefiro ficar aqui mesmo, sozinha. Antes só do que... – Daniela praticamente sussurrou esta última frase, apesar disso, eu consegui entendê-la. Saí da sala e fui para o banheiro. Lavei o corpo com água e sabão e a alma com lágrimas, tentando lembrar o momento exato em que aquela Daniela meiga, espirituosa e brincalhona pela qual me apaixonei se transformou nesse poço de amargura, ressentimento e rispidez com o qual tenho o desprazer de conviver hoje.
Troquei de roupa; fui à sala e comuniquei que estava saindo:
– Já vou indo, não vou demorar, tchau! – e Daniela continuou como estava, não moveu um músculo sequer e, como se eu fosse um fantasma, ignorou a minha presença e as minhas palavras. Virei e saí.
“Vinte, vinte, vinte quatro horas a mais
Eu quero ser sedado
Nada de amor
Nada de paz
Eu quero ser sedado
Me leva pro aeroporto, me bota no avião
Vamo, vamo, vamo eu hoje tô o cão
Eu não controlo a cuca
Eu não controlo a mão
Oh, não, não, não, não, não”...
Quando cheguei ao bar, por volta das onze e quinze, tocava essa versão de I wanna be sedated, do Ramones, cantada pela Rita Lee, me senti em casa; na verdade, me senti muito melhor do que em casa. O Augusto já estava lá, na mesa que tínhamos o hábito de ocupar. Assim que sentei, ele me perguntou:
– Que cara é essa, meu irmão?
– Nada... ou melhor, o de sempre: o mal humor da Daniela... mas deixa isso pra lá, já melhorei com a música e daqui duas cervejas vou estar completamente curado – respondi abrindo a primeira delas.
– Meu irmão, mudando de assunto, passei o dia inteiro lembrando daquele cara do sapato, no caminho pro trabalho – disse Augusto, depois de sorver um grande gole de cerveja.
– Então, fomos dois, meu chapa – respondi, me ajeitando na cadeira – E como você interpreta aquela mensagem, Augusto? – interroguei.
– Mensagem?! Não entendi, como assim? – indagou Augusto, meio confuso.
– Isso mesmo, meu amigo: uma mensagem. É assim que interpreto as coisas que acontecem ao meu redor. Não acredito em acaso, não acredito em coincidência. Acredito que a vida é um livro; cada ano, um capítulo; cada dia, um parágrafo; cada momento, uma linha escrita e cada acontecimento, uma possível mensagem, cujo conteúdo devemos, ao mesmo tempo, vivenciar e interpretar se quisermos ser, pelo menos, coautores do livro de nossas próprias vidas. Caso contrário, continuaremos desempenhando o medíocre papel de fantoches, sem jamais interferirmos conscientemente na história que, à nossa revelia, vai sendo escrita para nós.
– Pô cara, foi exatamente essa a sensação que eu tive, a sensação de que aquela não era uma cena qualquer, tive a forte impressão de que devia haver por trás daquilo uma significação qualquer, como você acabou de dizer, pois a imagem daquele cara largando o sapato e seguindo o caminho não me abandonou por um segundo sequer. Não é comum um evento qualquer me impressionar tanto e por isso passei o dia inteiro tentando encontrar uma explicação pra aquela cena – declarou Augusto, em tom de desabafo.
– Então, como você interpreta aquela cena, aquela mensagem que foi enviada pra nós? – perguntei, curioso.
– Prefiro ouvir sua versão primeiro, antes de socializar a minha – respondeu Augusto, abrindo mais duas long necks e me oferecendo uma.
– “Quantos olhos, tantas vistas”, diria Machado de Assis... – pensei alto, e antes que eu pudesse continuar, interveio Augusto:
– Que merda é essa, meu irmão, já tá bêbado, com duas cervejas?
– Não, cara, tenha paciência, seu mané, você nasceu de cinco meses? O que ia dizendo, quando pensei no Machado e antes de ser interrompido, é que cada um interpreta as mensagens ou os acontecimentos a partir da perspectiva ou da visão de mundo adota, entendeu? É como se cada indivíduo enxergasse as coisas por meio de uma lente e essa lente foi e vai sendo construída a partir das experiências de vida de cada um, percebe? Por isso que é tão difícil conseguir o consenso em qualquer coisa que envolva mais de uma pessoa – concluí, pensativo.
– E aí? Vai dar sua versão da cena que presenciamos ou vai ficar filosofando? – Augusto perguntou rindo.
– Como eu já te disse, recapitulei, pensei e refleti o dia inteiro sobre aquela cena e a mensagem que, até agora, eu consegui extrair dela pode ser traduzida mais ou menos assim:
– Se algo te incomoda, livre-se imediata e absolutamente disso - como aquele homem fez com o sapato -, pois nada que te incomode pode ser indispensável, além disso, despreze o que vão pensar ou dizer sobre a sua ação, faça como aquele homem, não olhe para trás – concluí, um pouco emocionado ao lembrar da decisão que eu havia tomado minutos antes, durante meu banho.
– Pô, meu irmão, faz muito sentido. Faz sentido também o que você disse sobre interpretarmos a mensagem de acordo com as nossas concepções, porque a minha interpretação é um pouco diferente da sua, não por acaso, mais sociológica. Eu interpretei assim, vê se faz sentido pra você:
– Eu, você, o garçon, o vocalista, o baterista, o bar-man – Augusto apontava enquanto falava – enfim, todos, formamos juntos um corpo social, ao qual demos o nome de sociedade, certo?
– Certo!
– Atualmente - e sabe-se lá desde quando, acho que desde que foi constituída na pré-história - essa sociedade é excludente. Exclui ou deixa à margem tudo e todos que não se adaptam às suas normas, tudo que atrapalha o seu bom funcionamento ou tudo o que incomode e influencie negativamente os que se adaptaram ou se submeteram às suas regras, concorda?
– Cara, pra que você tá me perguntando isso? Eu estudei História e não Administração, você sabe que eu concordo – respondi.
– Bicho, você nunca ouviu falar em retórica?
– Vai, continue.
– Então, recapitulemos o que eu estava dizendo, antes de você me interromper: juntos formamos uma sociedade que simplesmente descarta o que a incomoda, ou seja, naquela cena que nos impressionou, o homem maltrapilho, sujo, fedido, com problemas mentais representa a sociedade. E pra ser sincero, em minha concepção, é a melhor imagem ou representação que já vi da nossa sociedade, a que mais se aproximou da verdade. Pra completar a cena, o sapato - que incomodava e que sem cerimônia ou remorso foi descartado, abandonado no meio da rua - representa os moradores de rua, os drogados, os bêbados, os sem-teto, os loucos, os criminosos e todos os outros dejetos sociais, para os quais demos as costas, ignorando-os, achando que isso era suficiente para que deixassem de existir.
– É isso! Essa é minha interpretação para aquela cena – concluiu Augusto.
– Putz, meu irmão, você anda lendo muito Marx – brinquei.
– Nem é preciso conhecer Marx pra chegar a essa conclusão, basta não ser cego, e não tô me referindo a cegueira física, mas a outro tipo de cegueira, a cegueira moral ou espiritual, no sentido filosófico do termo.
O resto da noite foi só rock’n’roll e cerveja. Nos embriagamos e rimos a noite inteira. Eu ignorei a promessa que tinha feito à Daniela de não demorar, e quando cheguei em casa o sol já despontava, pra não acordá-la preferi dormir no sofá. No sábado, assim que ela acordou, por volta das dez horas da manhã, tivemos nossa última discussão.
Na verdade, só ela discutiu. Escutei tranquilamente tudo que ela tinha pra dizer e xingar. Quando ela terminou, fui até o quarto, peguei duas calças jeans, cinco camisetas, um tênis, minha escova de dentes, coloquei tudo numa mochila, saí e nunca mais voltei. Deixei pra trás aquele casamento que estava me incomodando a muito tempo.
Afinal, de que adiantaria eu receber uma mensagem tão eloquente como aquela e passar mais de quatorze horas tentando decifrá-la, decodificá-la, se ela não me servisse para nada, se não fosse para eu compreendê-la como uma mensagem para mim e se não fosse para eu colocá-la em prática na minha vida?
Mas a mensagem não foi só para mim, foi para o Augusto também e ele compreendeu isso. Assim que acabou aquele ano letivo, Augusto se mudou para uma grande cidade e se engajou viceralmente em diversos movimentos sociais em prol dos excluídos de toda espécie. Agindo assim, Augusto deixou para trás toda vã teoria e partiu para a prática; aboliu a ficção para viver a realidade.
Augusto se dedicou mais intensamente a um movimento que lutava em benefício dos sem-teto. Reivindicou social e judicialmente os direitos daquela gente; incomodou as autoridades, solicitando entrevistas; denunciou na imprensa os abusos e os descasos dessas mesmas autoridades para com os sem-teto; organizou manifestações; coordenou ocupações; e morreu defendendo essa causa, durante uma violenta operação policial de reintegração de posse.
Acabo de chegar do enterro de Augusto, então, em sua homenagem, resolvi compartilhar essa história, para que você, meu amigo leitor, tivesse acesso à mensagem que eu e Augusto recebemos e para que começasse a prestar atenção às mensagens que, das formas mais inusitadas e insuspeitas, podem lhe ser enviadas.
Já ia terminando essa história quando chegou em minha casa um amigo e colega de profissão, o Eliézer, que também era amigo do Augusto e vinha do enterro. Quando entrou, perguntou apontando para o computador ligado:
– Você tava trabalhando?
– Não, tava só escrevendo uma história que aconteceu comigo e com o Augusto.
– Posso ler?
– Claro! Senta aí – respondi, puxando a cadeira para que ele sentasse em frente ao computador.
Dez minutos depois, afastou a cadeira, olhou em minha direção e falou:
– Dia 13 de maio é o dia em que se comemora a Abolição da Escravatura, lembra? E tem mais: durante o período da Escravidão, para os escravos o sapato simbolizava a liberdade. Por isso, quando um escravo era alforriado, a sua primeira atitude era comprar sapatos para, por assim dizer, declarar sua nova condição.
– Caraca, meu irmão, é mesmo. Isso significa que aquele acontecimento carregava implicitamente três níveis convergentes de significação, isto é, a data, a cena como um todo e o sapato separadamente, tudo apontava  simultaneamente pra a ideia de liberdade... é... impressionante.




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NICOLE

    Lembro perfeitamente de tudo o que aconteceu naquele dia, nos mínimos detalhes. Era 13 de agosto de 2013, às 13 horas em ponto. Os supersticiosos enxergarão na data e na hora sinais funestos e o relato que se segue irá demonstrar que eles têm razão, ao menos em parte.
    Sou professor e trabalho em uma universidade a cem quilômetros de minha casa. Três vezes por semana faço o trajeto casa-universidade e universidade-casa. Geralmente, faço o percurso universidade-casa em duas horas mais ou menos, dependendo do trânsito.
    Nesse dia, como sempre, cheguei em frente a minha casa, posicionei o carro na rampa da garagem, acionei o controle do portão. Enquanto aguardava o portão abrir, meu celular tocou e, como era uma ligação importante, atendi. Quando o portão terminou de abrir, subi lentamente a rampa da garagem, que era um pouco íngreme. Novamente acionei o controle para fechar o portão.
    Por estar distraído com a ligação, me esqueci de puxar o freio de mão. Desci do carro, ainda ao telefone. Lembrei, porém, que para atender à solicitação da pessoa do outro lado da linha eu precisaria de alguns documentos que estavam na minha pasta.
    A pasta estava no assoalho do carro, do lado do passageiro. Assim que me abaixei para pegar a pasta, avistei minha filha, Nicole, então com quase três anos, surgindo na porta da sala e vindo toda sorridente em minha direção.
    Só quem é pai ou mãe conseguirá entender a emoção que senti ao vê-la caminhando em minha direção, com os braços abertos e repetindo: “Papai... papai chegô... papai chegô...”. E também só quem teve filhos poderá dimensionar a aflição, o desespero, que senti quando percebi que ao pegar a minha pasta, sua alça se enroscou no câmbio e desengatou o carro, que começou a descer de ré.
    Num instante, me desvencilhei de tudo, celular e pasta, para tentar segurar o carro, ao mesmo tempo em que gritava para minha filha: “Corre, Nicole, corre!!!”
    Infelizmente, eu não tive forças para segurar o carro e a Nicole não teve tempo de escapar. Olhei para o outro lado do carro procurando por ela e vi minha mulher chegar correndo apavorada com os meus gritos e com o barulho do carro batendo no portão. Sem emitir palavra, mas com um olhar indagador e rasos d’água, minha mulher me implorava uma explicação.
    Os segundos que separaram o instante em que o carro começou a se mover e o momento em que me abaixei para olhar embaixo dele procurando pela Nicole de forma alguma podem ser avaliados temporalmente. Ao menos para mim, aqueles poucos segundos foram uma eternidade. Uma eternidade de agonia, de aflição, de medo, de torturas.
    Naquele insignificante intervalo de tempo, uma verdadeira retrospectiva em torno da vida da Nicole passou diante dos meus olhos. Vi quadro a quadro e revivi todas as emoções que cada momento da vida da Nicole tinha me proporcionado, desde sua concepção até o instante, segundos antes, em que a vi correndo em minha direção.
    Revi a cena em que minha mulher se aproximou de mim com as mãos para trás e com um sorriso imenso nos lábios, pedindo para que eu adivinhasse o que ela tinha nas mãos: “Não sei, mas deve ser uma coisa boa, considerando o tamanho do seu sorriso”, respondi no mesmo momento em que ela me mostrava o teste de gravidez, que indicava positivo.
    Depois disso, revi, em seus detalhes, cada um dos 4 exames de ultrassom que minha esposa tinha feito e nos quais a acompanhei. Revivi a emoção que senti ao escutar pela primeira vez o coraçãozinho daquele bebê batendo. Revi o momento, no terceiro ultrassom, em que a médica afirmou com convicção: “É uma menina!”.
    Recapitulei o instante em que escolhemos o nome. Recapitulei ainda todos os preparativos para a chegada de Nicole: a pintura do quarto, a compra do berço e a compra de cada uma das peças do enxoval. Revi absolutamente tudo.
    Revivi o susto que tomei quando minha esposa me comunicou o rompimento da bolsa. Revivi, também, a inexplicável emoção de acompanhar o parto e a incrível sensação de me sentir um deus ao ouvir o primeiro vagido de Nicole e de pegá-la no colo pela primeira vez.
    Revi cada um dos dias de vida de Nicole e tudo o que tinha acompanhado e vivenciado com ela: a mudança na cor dos olhos, os diferentes timbres de choro – o de fome, o de cólica – as infinitas trocas de fraldas, as primeiras tentativas de controlar o pescoço, os primeiros balbucios, as primeiras tentativas de engatinhar, o surgimento dos primeiros dentinhos e a irritação que os acompanha e novamente me afligi ao reviver a primeira febre alta de Nicole.
    Revi os preparativos para a festinha de aniversário de um ano de Nicole e felicidade dela, já no dia da festa, ao ver a casa toda colorida, cheia de balões, decorada para festa. Revi o brilho nos olhos de Nicole ao receber os primeiros presentes e ao ver todas aquelas crianças reunidas, se divertindo numa verdadeira algazarra.
    Fiquei extremamente emocionado ao reviver a primeira vez que Nicole falou “papai” e revi os risos que eu e minha esposa demos com as confusões que Nicole fazia com as sílabas das palavras – papagaio virou pacagaio; adesivo, adeviso; maionese, manoiese e assim por diante. Revivi a emoção de assistir às primeiras tentativas que Nicole fez para ficar em pé e andar; novamente senti a felicidade de acompanhar ao lado dela a conquista dos primeiros e cambaleantes passos. Também revi os sustos, os tombos e os pequenos ferimentos decorrentes dessas tentativas.
    Revivi as pequenas-grandes descobertas que Nicole ia fazendo e todos os gestos e impressões que acompanhavam essas descobertas. Revi a careta que Nicole fez ao descobrir o azedume do limão; a estranheza dela ao sentir as bolhas do refrigerante estourarem na ponta de seu nariz; a expressão de nojo ao colocar seus pés descalços numa poça de lama.
    Recapitulei suas tentativas de dominar a língua e construir frases e relembrei as mais engraçadas – “Papai, você tá enforcando minha perna”; “Lemanta, mamãe, que o sol já tá pronto”; “Amanhã eu fui na casa da vovó com o papai”. Revi a comemoração do segundo aniversário de Nicole: a decoração do Nemo, os balões azuis e amarelos, o bolo no formato de Nemo, que, diga-se de passagem, provocou o choro da Nicole na hora do corte.
    Por fim, revivi o nosso sofrimento – meu, de minha esposa e da Nicole – quando ela começou a frequentar o berçário da creche. Revi e revivi muitas outras coisas que não me lembro agora, mas que passaram diante dos meus olhos naquele momento aflitivo.
    Reviver todos esses episódios referentes à vida da Nicole, à nossa vida em comum, não durou mais que cinco segundos. Eles se encaixaram no intervalo de tempo entre eu perceber que a Nicole não estava do outro lado do carro e o ato de me abaixar para procurá-la sob o carro. Infinitos segundos que me provaram a subjetividade do tempo.
    À medida que eu me abaixava para olhar sob o carro, meu coração acelerava, minha respiração se tornava cada vez mais difícil e um suor frio e pegajoso escorria pelo meu rosto. Eu sentia uma opressão indescritível.
    Quando coloquei minha mão no chão, todo o meu corpo tremeu em convulsão, a custo consegui me conter. Para piorar a situação, meu estômago estava embrulhado, uma tremenda ânsia de vômito me provocava calafrios, minha visão ficou bastante nublada e eu ainda ouvia, como que dentro da minha cabeça, um zunido muito forte, semelhante ao barulho da cigarra.
    Eu sentia que iria desmaiar a qualquer momento. Não sei como ou onde consegui forças para me manter firme e continuar abaixando... De repente, vi a mãozinha de Nicole estendida próxima à roda traseira esquerda, num pulo cheguei à parte traseira do carro.
    Apesar do medo, do pavor, do que eu poderia encontrar, novamente me abaixei. Eu mal podia acreditar no que estava vendo: Nicole estava lá, deitada de lado, quase em posição fetal, com os olhos arregalados, olhando para mim... e sorrindo. Percebendo minha estupefação e minha falta de ação, Nicole mexeu e estendeu os bracinhos como que pedindo para que eu a tirasse de lá.
      Com todo o cuidado, segurei em seu tronco e a puxei lentamente; enquanto isso, Nicole continuava sorrindo. Depois de retirá-la de baixo do carro, coloquei-a no colo, aparentemente estava ilesa, mas por via das dúvidas, comecei a apalpá-la com carinho à procura de ferimentos ou fraturas. Alguns instantes depois e ainda sorrindo, Nicole olhou nos meus olhos e perguntou:
    – Cê viu o anjo, papai?... 
    Sem saber o que pensar e sem conseguir conter a emoção, chorando, abraçando e beijando a Nicole e minha esposa, respondi:
– Vi, filha... vi...




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    PRINCÍPIO  

    – Se um cego de nascença não faz ideia do que seja a luz, isso não significa que ele possa concluir que a luz não exista. O máximo que ele pode concluir é que a luz não existe para ele. E acho que essa conclusão nós forçosamente deveremos aceitar. O que eu quero dizer é que mesmo sendo um empresário, um capitalista, não posso, não quero e não devo simplesmente concluir que as causas pelas quais os comunistas ou quaisquer outros grupos de esquerda lutam não existam ou não sejam legítimas. Devem existir e ter legitimidade para eles, por isso, acho que eles têm o direito de lutar pelo que acreditam.
    – Mas isso é um absurdo; um contrassenso, André, logo você, um dos homens mais ricos do país, defendendo esses canalhas. Eles querem pôr abaixo tudo que homens como você e eu construímos, eles querem dividir enquanto nós queremos multiplicar. Eles são uma ameaça, meu caro, justamente porque defendem ideias absolutamente opostas as que sustentam nossas posições e privilégios.
    – Eu sei, Olavo! Mas, no meu entender, não é um contrassenso o que estou afirmando. Contrassenso é pressupor que o limite de tudo e de todas as coisas são, única e exclusivamente, as nossas idiossincrasias, aquilo em que acreditamos e defendemos. Também é um equívoco, meu amigo, você afirmar que estou defendendo os comunistas ou os de esquerda, quando na verdade estou defendendo um direito universal. Para ser mais específico, estou defendendo o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que assegura que, abre aspas: Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão. Fecha aspas.
– Além disso, Olavo, da mesma forma que defendo o direito dos outros lutarem pelo que acreditam, defendo o nosso direito de lutar pelo que acreditamos e lutar para preservar o que conquistamos. Afinal, a mesma Declaração dos Direitos Humanos garante que, abre aspas novamente: Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros e que ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade. Fecha aspas. – enquanto falava, André mantinha um indisfarçável tom de ironia – E o melhor de tudo, como você bem sabe Olavo, é que nós nem mesmos precisamos lutar com nossas próprias mãos para nos defender e defender nossas propriedades e nossos interesses, pois temos a polícia, o exército e todas as instituições armadas ao nosso serviço. Além do mais, Olavo, essa discussão e esse medo já estão caducos, não estamos mais na década de 60 – concluiu André.
– Confesso, André, que a princípio fiquei um pouco preocupado com a sua declaração, mas agora, depois dessa explicação a la Schopenhauer, respiro bem mais aliviado e aproveito para propor um brinde... um brinde ao Direito, que, como o Arcanjo Gabriel, nos defende, lutando contra todo o mal, desde os ladrões de lenha até os insaciáveis leões. Tim-tim! – propôs cinicamente Olavo.
– Tim-tim! – brindaram satisfeitos e apaziguados todos os empresários magnatas e seus acompanhantes que compartilhavam a mesa da Presidência do Rotary Club do Rio de Janeiro, durante aquela confraternização do Natal de 1988, que transcorreu sem nenhum outro incidente. Olavo, que era o presidente do Rotary naquele momento, estreitou ainda mais os laços de amizade com André, depois daquele mal entendido, como ele posteriormente nomeou aquele episódio.
É verdade que, no fundo, o orgulho de Olavo saiu ferido daquele embate, mas, como ele mesmo costumava afirmar publicamente, os interesses econômicos devem suplantar quaisquer sentimentalidades. Desde que lucrasse alguma coisa, Olavo estava pronto a considerar que o orgulho era um sentimento medieval, que anacronicamente brotava e medrava em algumas almas desprovidas de razão e senso prático. E foi exatamente essa a impressão que Caio, filho de André, teve de Olavo e quis compartilhar com o pai, enquanto faziam o caminho de volta para casa:
    – Pai, sinceramente, não gosto do Olavo. Acho que ele é um homem insensível, extremamente materialista, baixo, interesseiro... parece capaz de fazer qualquer coisa por dinheiro e poder. Tenho a forte impressão de que Olavo é daquele tipo de homem que nunca teve e jamais terá princípios, ética, valores morais. Para mim, pai, Olavo é um homem desprezível, repugnante. Apesar disso – continuou Caio, depois de alguns instantes de reflexão –, para desencargo de consciência, devo dizer que, como Olavo, achei muito estranho a forma como o senhor defendeu os comunistas.
    André escutou atenta e silenciosamente todo o comentário do filho, no entanto, nos primeiros minutos que se seguiram, não proferiu nenhuma palavra, apenas parecia meditar. Caio já começava a ficar apreensivo, pensando ter magoado o pai, quando este rompeu o prolongado silêncio:
    – Pedro.
    – Pois não, senhor – respondeu o chofer.
    – Por favor, dirija em direção à Tijuca – solicitou André.
    – Imediatamente, senhor – atendeu Pedro.
    Enquanto Caio ia conjeturando os motivos da mudança repentina de rota, André continuava a ruminar algumas ideias e a ponderar as opiniões que o filho acabara de emitir. André sabia que o máximo de realidade que seu filho conhecia era aquela enlatada e apresentada em conta gotas e de forma palatável pelo Jornal Nacional. A bem da verdade, o mais próximo que Caio havia chegado da realidade foi durante as leituras de A Insustentável leveza do ser e do Contraponto. Apesar dos vinte anos, Caio era uma criança, ingênua e sonhadora, não conhecia o mundo de verdade, nem a verdade do mundo, aquela mesma que Olavo professava; não conhecia a fria e cruel realidade, sua vida, até aquele momento, havia sido um holograma, uma ilha de fantasias, construída a custo de muito dinheiro.
    – Senhor, chegamos. Estamos na Praça Sans Penha – anunciou Pedro.
    – Pode dar a volta na praça, Pedro, e parar do outro lado, por favor – orientou André.
    – Aqui está ótimo, Pedro.
    Enquanto Pedro estacionava o carro ao lado de uma guarita da polícia, André tirou o paletó, a gravata, a carteira e o relógio, e recomendou ao filho que fizesse a mesma coisa. Em seguida, André retirou da carteira um maço de notas e colocou no bolso da calça. Era aproximadamente duas horas da manhã quando desceram do carro e cumprimentaram os policiais de plantão. Caio tentava disfarçar, mas, apesar disso, sua fisionomia repercutia o medo que sentia. O subúrbio para ele era sinônimo de criminalidade. Sem conseguir se conter, Caio resolveu perguntar:
    – Onde estamos indo, pai?
    – Encontrar com a verdade, meu filho – respondeu laconicamente André.
    Caio não entendeu a resposta e resolveu aguardar estoicamente o desenlace daquele mistério. Seguiram andando por uma rua paralela à praça por uns quatrocentos metros, até que chegaram ao pé de um morro. André parou, olhou solenemente para cima, virou-se para Caio e disse com a voz meio embargada:
    – Esse é o Morro do Salgueiro, meu filho, morei aqui por vinte e quatro anos...
    É difícil precisar qual das informações provocou maior espanto e alvoroço em Caio, se a informação de que aquele era o famoso Morro do Salgueiro – famoso na Marquês de Sapucaí, mas sobretudo nas colunas policiais – ou se a informação de que o pai havia morado naquele covil. Sentindo o coração palpitar e as mãos tremerem, Caio tartamudeou:
    – Ma... mas, pai, você nunca me contou isso...
    – Você nunca perguntou, nunca quis saber da minha história. Por que eu haveria de contar? – redarguiu melancolicamente André, que depois de alguns instantes continuou – Venha, acho que chegou a hora de contá-la a você – e começaram a subir o morro, André com convicção, Caio com receio. Nos primeiros duzentos metros, a ladeira era larga e reta, calçada de paralelepípedos, depois disso, fazia uma curva para a esquerda e, gradativamente, ia afunilando até se transformar em uma viela. Enquanto caminhavam, André ia falando:
    – Eu nasci aqui, meu filho. Não conheci meu pai e perdi minha mãe quando eu tinha treze anos. Quando me vi sozinho, olhei à minha volta e só enxerguei dor e desgraça. A miséria, a fome e a podridão eram minhas vizinhas, muitas vezes flertei com elas. Comparado com aquela época, hoje esse morro é um paraíso.
    No momento em que abandonaram a viela em que estavam e viraram numa outra à direita, viram um homem – que até então estava sentado numa lata de tinta em frente a um barraco do lado esquerdo da viela, com um fuzil a tiracolo – levantar, empunhar a arma e perguntar:
      – Preto ou branco?
    André continuou a caminhar tranquilamente se aproximando do homem do fuzil, enquanto Caio, confuso e hesitante, procurava decifrar o significado daquela pergunta. Quando, alguns passos adiante, André e Caio passaram ao lado de uma lâmpada acesa, o homem do fuzil abaixou a arma e exclamou:
    – Pô, doutor, é o senhor, me desculpa, eu pensei que fosse um cliente...
    – Tudo bem, rapaz – respondeu André, com certa familiaridade que intrigou Caio; se dirigindo ao homem do fuzil, André continuou o diálogo:
    – Será que tem algum problema se eu subisse pra mostrar pro meu filho o lugar onde morei e a vista lá de cima?
    – Não, doutor, sem problema, o senhor tá em casa. A comunidade deve muito ao senhor. Se não fosse o senhor a gente não tinha nem a escola nem o posto de saúde, porque o senhor sabe que se dependesse do governo... mas, espera um pouco, doutor, que vou comunicar o patrão e chamar um vapor pra acompanhar o senhor – respondeu o homem, sacando um rádio e dando alguns passos para trás.
    Passados uns cinco minutos, surgiu de um dos becos próximos um garoto negro de uns treze anos, que vestia apenas bermuda e chinelos. Quando o garoto se aproximou, o homem do fuzil se virou para André e disse:
    – O patrão disse que o senhor pode subir tranquilo doutor. Esse moleque aqui vai acompanhar o senhor, o nome dele é Davi e o meu, doutor, é Roberval, mas todo mundo aqui me chama de Zumbi.
    – Obrigado, Zumbi – agradeceu André, enfiando a mão no bolso e, ato contínuo, estendendo-a para cumprimentar Zumbi, com duas notas de dez mil cruzados discretamente camufladas entre os dedos, para não constranger Zumbi.
    – Pô, doutor, brigado, não precisava – disse Zumbi.
    – Por nada Zumbi, é pra você comprar um presente pro seu filho. Você tem filho Zumbi? – quis saber André.
    – Tenho, doutor. Tenho três pirralhos, dois meninos e uma menina – satisfez Zumbi.
    – Então, toma aqui mais dez mil – ofereceu André.
    – Poxa, doutor, muito obrigado, valeu mesmo.
    – Então, nós vamos subindo, Zumbi – disse André.
    – Vai na paz, doutor! Oxalá acompanhe o senhor e te defenda de toda coisa ruim – reiterou Zumbi.
    Já haviam dado alguns passos, quando ouviram Zumbi chamar:
– Doutor...
– Pois não, Zumbi – respondeu André.
– Feliz Natal pro senhor e pra toda sua família, doutor – desejou Zumbi.
– Muito obrigado Zumbi e feliz Natal pra você e pra sua família também – retribuiu André.
    Continuaram a subida. Davi seguia na frente desempenhando a dupla função de batedor e guia, embora André conhecesse o caminho. Depois de uns vinte minutos de caminhada, por entre becos sujos e vielas sinuosas, sempre em aclive, André chamou Davi e pediu que parasse por alguns minutos, para que ele pudesse mostrar algo ao filho.
    André olhou meditativamente para a margem direita da viela em que subiam. Havia um amontoado de barracos, sendo impossível distinguir o fim de um barraco e o começo do outro. Se fosse construído na Espanha, esse conjunto de barracos, devido à irregularidade de suas linhas estruturais, facilmente seria tomado por uma obra de Gaudi.  Em alguns desses barracos porejava uma água suja e fedida, que nutria uma cortina de musgo viçoso que adornava os rodapés.
– Foi naquele barraco ali, meu filho – André apontava o barraco mais à esquerda do conjunto – que vivi os meus primeiros vinte e quatro anos, dos quais os onze últimos, absolutamente sozinho no mundo – disse André, profundamente emocionado. Caio olhou o barraco e não soube o que dizer.
Instantes depois, André recomeçou a andar, Davi entendeu a mensagem e retomou a dianteira, caminhando ladeira a cima. Caio, ao lado do pai, ia observando e refletindo sobre aquele festival de horrores, ao mesmo tempo em que tentava conciliar aquela nova faceta concreta e desmitificada de seu pai à imagem idealizada que havia feito dele. Trinta e cinco minutos depois o grupo chegava ao topo do Morro da Tijuca. Do lado esquerdo da trilha mais pisada que seguia mato adentro, havia uma grande rocha granítica. André, seguido de Caio, deu a volta na rocha – sua velha amiga do passado, conselheira e consoladora nas horas mortas – e foram acomodar-se em sua crista. Davi deu alguns passos na direção oposta a que André e Caio haviam tomado e discretamente se ocultou na sombra. Passados alguns minutos, já refeito da caminhada, André retomou a fala iniciada em frente ao barraco:
– Quando se tem por perspectiva a miséria, o crime ou a morte, Caio, o sujeito vê, pondera e julga as coisas e as pessoas de uma maneira um pouco diferente da sua, meu filho. Não podemos julgar as pessoas tendo como fiel da balança única e exclusivamente os princípios que adotamos. Se procedermos assim, não levando em conta determinadas circunstâncias não seremos apenas péssimos juízes, seremos piores que isso... seremos inquisidores – disse André, mansa mas convictamente.
– E não vá pensar que vim até aqui e que estou falando essas coisas com o propósito de defender o Olavo. Muito pelo contrário, concordo com boa parte do que você disse sobre ele, mas por outros motivos que não vêm ao caso no momento – André fez uma pausa, respirou profundamente olhando o horizonte e prosseguiu:
– Na verdade, meu filho, nós viemos até aqui para que eu pudesse me defender de forma mais contundente – esclareceu André.
– Mas, pai, de tudo que falei, eu só me referi ao senhor quando disse que achava estranho o senhor defender os comunistas – argumentou Caio, meio sem entender o que seu pai queria dizer.
– Não, meu filho, mesmo sem saber, quando se referiu a homens que por dinheiro sacrificam princípios éticos e morais, você estava se referindo a mim – disse André, em tom de confissão.
– Não estou entendendo, pai... considero o senhor um modelo de homem ético e probo, foi justamente o senhor que com lições e exemplos me ajudou a construir e consolidar os princípios que hoje defendo, pai – garantiu Caio, confuso e emocionado.
– É meu filho... sinto demolir suas ilusões a meu respeito, mas é a pura verdade. Apenas as circunstâncias me diferenciam do Olavo, se não as levarmos em conta, serei uma criatura tão repugnante quanto ele – declarou André honestamente.
Um silêncio pesado e angustiante pairou no ambiente. Caio cismava dolorosamente, num momento se acalmava e tentava juntar os cacos de suas concepções, mas no momento seguinte se desesperava e se martirizava com a expectativa do que seu pai ainda tinha para lhe revelar. Enquanto isso, ao seu lado, absorto, André hauria forças para continuar sua confissão, inspirando profundamente o ar úmido e fresco que vinha da Floresta da Tijuca e contemplando o céu estrelado. Dez minutos haviam passados quando André retomou a história:
– Minha mãe, Caio, era uma mulher muito trabalhadora. Faxinava casas por toda Tijuca; lavava e passava para fora. Dia e noite a vi subir e descer essas ladeiras com trouxas de roupa na cabeça, numa azáfama sem fim – André suspirou tristemente e continuou – Minha mãe era muito bonita, mas não tinha tempo para pensar em si mesma e se cuidar. Ela precisava garantir minha sobrevivência. Algumas vezes, vi um homem bem arrumado rondar nossa casa e conversar com ela. Me lembro com muita nitidez dela balançando a cabeça negativamente, rejeitando o dinheiro que ele oferecia, não entendia o porquê da rejeição e um dia cheguei a perguntar para ela e ela respondeu humildemente: “É dinheiro sujo meu filho, eu não posso aceitar”. Tempos mais tarde descobri que aquele homem era um cafetão. Apesar da dignidade e dos trabalhos incessantes de minha mãe, vivíamos na miséria. Muitas vezes passei fome... lembro de algumas vezes à noite, quando eu reclamava de fome, minha mãe sentava ao meu lado, punha minha cabeça em seu colo, acariciava meus cabelos e dizia carinhosamente: “Dorme que passa, meu filho”. Não passava Caio, às vezes eu nem dormia e nesses momentos de fome e angústia eu – ainda uma criança – jurei para mim mesmo que iria sair e tirar minha mãe daquela situação.
André chorou em silêncio por alguns minutos, organizando as memórias e aquietando a alma e o coração. Tomou fôlego e mais uma vez rompeu o silêncio:
– Todo dia minha mãe acordava às quatro horas da manhã para lavar as roupas que as vizinhas lhe enviavam ou que tinha recolhido na véspera. Ela lavava a mão, ensaboava, esfregava, torcia, batia, enxaguava tudo a mão e, por isso, ela ficava com a roupa e o corpo todo molhado, até que o sol viesse e lhe secasse a roupa no próprio corpo. Muitas vezes, para dar conta do trabalho prolongava essa labuta até nove horas da noite. Depois de muitos anos nessa triste rotina, minha mãe começou sucumbir. A princípio, se alimentava pouco e tossia esporadicamente; dois meses depois, tossia ininterruptamente, escarrava sangue e definhava: era tuberculose. Sem tratamento, a doença evoluiu rapidamente e, a olhos vistos, minava as forças de minha mãe. Ela ainda resistiu três meses. Durante esse período, graças à comiseração dos vizinhos que garantiram o indispensável para nossa alimentação, eu pude passar as tardes e as noites ao lado da cama de minha mãe, pois as manhãs ela obrigava que eu as passasse na escola. Sempre dizia que a escola era minha única chance de salvação e que, independente do que acontecesse, eu deveria continuar na escola. Muitas vezes me fez prometer isso: “– Promete, meu filho, por tudo que é mais sagrado?” “– Prometo!”, eu respondia. “– Promete pela vida da sua mãe?” – insistia ela. “– Prometo, mãe. Juro por Deus” – eu respondia, sabendo que ela preferia juramentos à promessas.
– Numa daquelas noites de sofrimento e aflição que passei ao lado dela, nos momentos finais de sua vida, minha mãe me contou a história de meu pai. Segundo ela, ele era um operário honesto e honrado, que trabalhava de sol a sol, acreditando cegamente na filosofia trabalhista de Getúlio Vargas. Entretanto, apesar do esforço de ambos, não prosperavam, mas não se rendiam e iam se arrastando na vida.
– Um dia, dois homens – ladrões conhecidos que moravam aqui no morro – vieram até a casa deles e tentaram convencer meu pai a participar de um assalto com eles, diziam que precisavam de um homem forte e que com o produto do roubo os três conseguiriam viver por no mínimo dois anos no bem-bom – meu pai recusou, segundo minha mãe, argumentando que não podia participar porque era devoto de Santo Expedito e também porque que não achava certo tirar nada dos outros.
– Sem saber se por despeito ou por medo de serem denunciados, minha mãe disse que dois dias depois de falarem com meu pai, aqueles homens o mataram e deixaram seu corpo na porta do barraco onde ela e meu pai moravam, com um bilhete preso entre os dedos de umas das mãos, no qual estava escrito com uma letra estranha: “Agradeço a Santo Expedito, pela graça recebida. Se abrir o bico, morre também”.
– O mais triste e irônico desse epsódio é que aquele dia era pra ser um dia feliz, pois minha mãe esperava ansiosamente a chegada de meu pai para contar que estava grávida – mais uma vez André precisou se recompor – Não é fácil para mim, lembrar e contar essa história. Foram tempos muito difíceis. Dias depois de me contar essa história e em meio a muita dor e agonia, minha mãe morreu – discretamente André passou a mão nos cantos dos olhos, suspirou e continuou:
– Assim, meu filho, a história do meu pai, a da minha mãe, da qual tomei parte, e outras que conheci de muito perto naquela época, me fizeram crer convictamente que algumas pessoas nascem fadadas à miséria e, sinceramente, eu não queria essa sina para mim. Tudo indicava que o meu destino seria semelhante ao dos meus pais, mas eu estava disposto a contrariá-lo a qualquer preço.
– Desde os sete anos eu fazia uns bicos para ajudar minha mãe. Nas feiras da Tijuca, em troca de algumas moedas, eu carregava, em um carrinho feito de madeira e rolamentos, as compras das donas de casa que moravam na redondeza; com o mesmo carrinho, eu transportava material de construção morro acima e morro abaixo; carregava água, pois muitos barracos na época não tinham; descia o morro para comprar gás ou qualquer outra coisa para as vizinhas e tornava a subir carregado. Enfim, fazia tudo que uma criança, entre os sete e os treze anos, podia fazer para ganhar uns trocados, aliviando a carga da minha mãe.
– Depois que ela morreu, eu só podia contar comigo mesmo. Até os quinze anos eu continuei fazendo esses e outros bicos para me sustentar, e a miséria teimava em cruzar meu caminho. Voltei a passar fome, só que agora sem os carinhos da minha mãe para amenizar. Chorei, desesperei, amaldiçoei Deus e o destino, renovei o juramento de fazer qualquer coisa para sair daquela situação e continuei a estudar, cumprindo o juramento que havia feito à minha mãe.
– Quando completei dezesseis anos ganhei o primeiro presente da minha vida: um emprego de verdade. Uma vizinha de barraco, que era copeira num grande banco, me indicou para uma vaga de faxineiro. Fiz uns testes, passei por um período de experiência e, graças a Deus, fui contratado; isso foi em 1960.
Finalmente, eu teria um salário no fim do mês. Sempre trabalhei com dedicação, qualquer atividade que me atribuíssem eu procurava desempenhá-la o melhor possível. Assim, rapidamente me destaquei, e em seis meses eu já era o encarregado da limpeza. Embora tenha dificultado e atrapalhado algumas vezes, o trabalho não me impediu de continuar os estudos.
– Dois anos se passaram sem grandes alterações na minha vida. Apesar disso, frequentemente eu acordava sobressaltado no meio da madrugada. Desde que minha mãe morreu, eu tinha um pesadelo recorrente. Nele, eu a via caminhando de braços abertos em minha direção, mas à medida que se aproximava sua imagem ia se convertendo em uma criatura descarnada, com braços alongados, que se moviam como patas de aranha, tentando me apanhar, para completar o quadro sinistro, a criatura me chamava pelo nome, enquanto vomitava sangue aos borbotões. Para mim, aquela era a imagem da miséria; acho que aquela foi a forma que meu cérebro conseguiu encontrar para amenizar ou dissipar as dolorosas impressões gravadas em suas áreas mais recônditas, me mantendo alerta e mentalmente saudável.
– No início de 1963, em reconhecimento aos bons serviços que prestei e, também, segundo o gerente do banco, aos meus esforços no sentido de me aperfeiçoar – eu tinha acabado de concluir o colegial e ser aprovado para Economia na Federal Fluminense – fui promovido para trabalhar no departamento de compensação de cheques, onde fiquei por dois anos.
Em meados de 65, alguns funcionários do banco, sindicalistas ativos, foram presos e, consequentemente, demitidos. Para ocupar o lugar de um deles, caixa, fui mais uma vez promovido – André olhou na direção em que tinha visto Davi se ocultar, no momento em que chegaram ali, viu um discreto movimento entre as sombras e chamou a meia voz:
– Davi.
Solícito ou interessado em colher os frutos que a prodigalidade de André distribuía, Davi saiu da sombra, caminhou em direção ao pé da rocha em que estavam sentados André e Caio, e perguntou:
– O senhor chamou?
– Chamei sim, Davi. Tem como você conseguir um pouco de água para gente beber?
– Tem sim senhor! – atendeu Davi.
– Estou morrendo de sede e você deve estar também. O Caio vai levar um dinheiro aí pra você comprar a água pra nós e se você quiser pode comprar também alguma coisa pra você comer – André tirou uma nota de mil cruzados passou-a para o filho, que desceu para entregá-la a Davi. Davi pegou o dinheiro e foi cumprir a missão. Quando Caio novamente se sentou ao seu lado, André continuou:
– Como eu estava falando, com a prisão de alguns funcionários do banco, fui promovido a caixa. Apesar do relativo progresso, eu continuava a morar aqui no morro e a ter aqueles horríveis pesadelos. Morava aqui para não ter que pagar aluguel em outro lugar e continuava a ter aqueles pesadelos, porque não é fácil exorcizar o demônio da miséria.
– Eu precisava pensar e fazer algo que garantisse minha independência financeira, mas me faltava coragem e sobrava escrúpulo para tentar qualquer coisa mais audaciosa ou menos digna. Vivia nesse cruciante dilema, até que um dia tive uma ideia.
Não, não foi apenas uma ideia... foi muito mais que isso... foi a minha salvação! – ao se lembrar desse epsódio, os olhos de André brilharam mais intensamente, sua voz adquiriu uma entonação diferente, mais grave, parecia estar em êxtase. Caio percebeu a transformação e se aproximou mais do pai. André estendeu os braços sobre os ombros do filho e continuou:
– A ideia era simples, consistia em dividir com Deus ou com a sorte a responsabilidade pelo meu destino, pelo meu futuro.
– A partir do momento em que tive a ideia, 6 de junho de 1966, todo dia eu cumpria o mesmo ritual: chegava ao banco mais cedo que meus colegas de caixa e ocupava o guichê mais à esquerda, junto à parede. Desse modo, eu ficava tendo apenas um vizinho de guichê, que geralmente era um sujeito chamado Adão Ladd, meu melhor amigo naquela época. Depois que o banco abria, à medida que as movimentações bancárias iam sendo efetuadas e que o dinheiro do meu caixa aumentava significativamente, eu ia fazendo maços de notas grandes, para dar menos volume, e discretamente ia jogando esses maços no cesto de lixo do guichê que eu ocupava. A partir daí, eu começava a rezar, torcer, implorar, para que o banco fosse assaltado. Se isso acontecesse, eu poderia ficar com o dinheiro que eu havia camuflado em meio ao lixo; se não acontecesse, obviamente, também de forma discreta, eu pegava o dinheiro que havia escondido no cesto, recolocava no caixa, que depois de conferido e fechado era levado para tesouraria, e lá reconferido.
– Na última etapa do ritual diário, depois que reconferiam o caixa e nos liberavam, eu recolhia o saco de lixo do meu guichê – sob o pretexto de ajudar o pessoal da limpeza, afinal de contas eu sabia por experiência própria o quanto era árduo aquele trabalho – e jogava-o, ao sair, numa grande caçamba de lixo, que ficava ao lado da saída, na parte de trás do banco.
Nesse momento, Davi reapareceu; trazia uma sacola numa mão e uma botija de barro na outra. Sem cerimônia, subiu na pedra em que André e Caio estavam e disse:
– O único lugar aqui perto que fica aberto até essa hora é o bar do Caçapa e lá ele não vende água, então, comprei uma Coca grande e uma cerveja. Depois, passei lá em casa, peguei esse pote d’água e uns copos, por isso demorei – explicou Davi, tirando os copos, as bebidas e um abridor. Em seguida, enfiou a mão no bolso da bermuda e tirou o troco para devolvê-lo a André, que o antecipou dizendo:
– O troco é seu.
– Valeu! – agradeceu Davi.
André bebeu dois copos d’água e se serviu da cerveja, enquanto Davi e Caio secavam a garrafa de Coca. Em seguida, André disse a Davi que se quisesse ir embora podia ir tranquilo.
– Não posso, tô no meu horário de trabalho e meu trabalho agora é acompanhar o senhor – respondeu Davi.
– Tudo bem, Davi. Você tem irmãos? – especulou André.
– Tenho dez – respondeu sorrindo malandramente Davi, lembrando do agrado que André havia feito ao Zumbi.
André e Caio entreolharam-se e riram compreendendo a sagacidade e intenção de Davi. Porém, antes que o levassem a mal, Davi remediou:
– Tô brincado, falei que tinha dez porque se o senhor deu dez mil cruzados para cada filho do Zumbi, imagina quanto eu não ia ganhar... – todos caíram na gargalhada.
– Na verdade – continuou Davi, depois de um tempo – só tenho uma irmã mais nova, de seis anos.
– Então, Davi, vou te dar o mesmo tanto de dinheiro que dei para o Zumbi, mas você vai dar a metade para sua mãe e a outra metade você divide com sua irmã, pode ser?
– Acho que o senhor não entendeu o que eu disse. Eu tenho só uma irmã mais nova, não tenho mais pai nem mãe, eles morreram, eu que cuido da minha irmã – respondeu Davi orgulhosamente.
– Então, vou te dar mais do que eu dei pro Zumbi e também vou te dar um emprego, se você quiser – disse André, estendendo a mão para Davi em sinal compromisso. Depois disso, André enfiou a mão no bolso, tirou todo dinheiro que havia lá e passou para Davi, e disse:
– Segunda-feira eu venho aqui para vermos o negócio do emprego.
– Brigado! – agradeceu Davi – Agora, vou voltar pro meu posto – disse Davi descendo a pedra. Quando se viram só, André questionou:
– Onde eu parei mesmo?
– Você estava descrevendo o ritual que cumpria diariamente, desde o dia em que teve a ideia – respondeu Caio.
– Então... por mais de seis meses realizei religiosamente aquele ritual: escondia o dinheiro no cesto, devolvia o dinheiro para o caixa, recolhia o saco de lixo do meu cesto e jogava na caçamba. Até que um dia - 26 de dezembro de 1966 - minha cúmplice, a sorte, resolveu entrar em ação.
– Naquele dia, quase no final do expediente, um grupo revolucionário invadiu o banco, anunciando o assalto. Eram sete pessoas, seis homens e uma mulher, todos muito bem armados. Dominaram com facilidade os dois guardas do banco, algemando-os a uma pilastra. Por ser uma segunda-feira, ainda havia muitos clientes no banco. O homem que parecia ser o líder do grupo proclamou em alto e bom som para clientes e funcionários: “– Mantenham a calma! Nós não queremos o dinheiro de vocês, queremos apenas o dinheiro do banco, pois esse tipo de instituição conspira contra o Brasil e os brasileiros, remetendo seus lucros, obtido por meio de juros abusivos, para o exterior, principalmente para os Estados Unidos, que não por acaso tem uma ave de rapina como emblema nacional. Sim, companheiros! Nós somos comunistas e aqui, neste momento, estamos lutando contra a opressão e a exploração internacional, estamos lutando pela soberania nacional e pela liberdade de cada um de vocês”.
– Enquanto o homem fazia muito compassadamente aquele discurso, os outros integrantes do grupo, extremamente calmos e coordenados, executavam o assalto. Dois deles, um homem e uma mulher, limpavam os caixas; três renderam o gerente, obrigaram-no a abrir o cofre e o esvaziaram; o sétimo homem vigiava a entrada, dando cobertura. O final da fala do homem determinou o final da ação do grupo. Aquele não foi apenas um discurso político, foi o cronômetro da ação. Com vários malotes cheios de dinheiro, o grupo saiu do banco pela porta dos fundos, onde dois carros os esperavam, conforme nos informaram depois.
– Alguns minutos depois de acabado o assalto, a polícia chegou, e com ela uma atmosfera de tensão muito maior do que a que havia acompanhado o assalto. Vários policiais, tanto fardados quanto à paisana, andavam nervosamente de um lado para outro, encarando os funcionários como se fôssemos os próprios assaltantes. Aparentemente, suspeitavam de tudo e desconfiavam de todos.
– Concluídas as primeiras averiguações, o delegado que cuidava do caso começou a interrogar todos os funcionários, na suposição de que algum pudesse ter fornecido informações aos assaltantes. Quando chegou a minha vez o delegado me fez uma série de perguntas: onde eu morava; se por acaso eu estava envolvido com comunistas; se eu havia reconhecido algum dos assaltantes; se eu conseguiria fazer um retrato falado de algum dos assaltantes; além dessas, o delegado me fez muitas outras perguntas, sendo que tudo que eu respondia era anotado pelo escrivão que o acompanhava. Assim que terminou de me interrogar o delegado me dispensou, não sem antes me advertir de que se precisasse de um novo depoimento ou mais esclarecimentos mandaria me chamar. Respondi que estaria à disposição dele sempre que fosse necessário.
– Durante cada segundo daquele interrogatório, eu só pensava no dinheiro que estava na minha lixeira e angustiado temia não só perdê-lo, mas perder o pouco que eu havia conquistado até aquele momento e o pior de tudo, temia perder minha liberdade.
– À medida que íamos sendo dispensados pelo delegado, o gerente do banco nos liberava. Como não seria preciso conferir e fechar o caixa, deveríamos simplesmente mandar a papelada para a tesouraria. Assim fizemos. Depois disso, como eu sempre vinha fazendo, recolhi o saco de lixo do meu guichê – que para meu alívio continuava relativamente pesado – me despedi e ia saindo, quando alguém do outro lado do saguão se dirigiu a mim quase gritando:
 “– Ôô rapaz...”
– Para meu desespero, quando levantei a cabeça e olhei na direção de onde vinha a voz, vi que era o delegado quem me chamava. Tentando manter a calma respondi:
“– Pois não, doutor”.
“– O que tem aí dentro desse saco de lixo, rapaz?” – perguntou rispidamente o delegado.
“– Só lixo do meu guichê, doutor. Todo dia eu recolho o meu pra ajudar o pessoal da limpeza” – respondi justificando, na esperança de que me deixasse em paz.
“– Sei... traga esse saco aqui, deixe eu dar uma olhada”.
– Naquele momento fiquei sem saber o que fazer: pensei em sair correndo, pensei em confessar e me entregar, pensei em colocar a culpa em alguém, pensei em desmaiar, pensei até em morrer. No entanto, resignado com o meu fado, decidi atender a ordem do delegado e resoluto fui caminhando calmamente na direção dele. Afinal, naquela altura da minha vida eu já tinha aprendido que o que não tem remédio, remediado está. Porém, antes que eu chegasse ao meio do saguão, o escrivão saiu da sala onde fomos interrogados, anunciando aos berros:
“– Doutor, nossos homens prenderam o bando, estavam mesmo em Santa Tereza, como o nosso informante havia falado. Nesse momento eles estão sendo levados lá para a nossa DP”.
– Ao receber aquela informação, o delegado simplesmente se esqueceu de mim. Virou as costas, deu algumas ordens, chamou alguns dos seus agentes e saiu rapidamente em direção ao seu distrito.
– Para meu alívio, mais uma vez minha cúmplice tinha entrado em cena decisivamente. Como se nada tivesse acontecido, me despedi de novo e atravessei o saguão em direção à saída. Assim que saí do banco, ao invés de jogar o saco de lixo na caçamba, guardei-o imediatamente na minha pasta.
– A alguns quarteirões do banco, por precaução peguei um taxi, pois pensava que da mesma maneira que tinha tido uma grande sorte naquele dia, poderia ter um grande azar. Dentro do taxi, durante o trajeto, fui abraçado à minha pasta, imaginando quanto exatamente haveria ali dentro, eu sabia que tinha uma boa quantia. Aquele foi um dia muito movimentado, muitos comerciantes tinham depositado todo o fluxo de caixa do Natal. Da mesma forma que o assalto foi bem executado, deve ter sido bem planejado, pois a data foi muito bem escolhida, além de ter sido numa segunda, que geralmente era um dia bem movimentado, foi um dia depois do Natal, uma das datas mais rentáveis para o comércio.
– Quando desci do taxi, na praça Sans Penha, apesar do meu medo, agi naturalmente até chegar em casa. Assim que entrei, tranquei a porta, abri minha pasta e tirei de lá o saco de lixo. Fui para o quarto, sentei no chão, onde despejei o conteúdo do saco, recoloquei o que era lixo no saco e vi que havia mais de quinze maços grossos de notas. Comecei a desfazê-los, a separar as notas e a contá-las, com a agilidade que já havia adquirido, não gastei mais que dez minutos nessa operação. Havia pouco mais de três milhões de cruzeiros, era o equivalente ao preço de mercado de dois Opalas novos, na época, o Opala era um carro de luxo. A vida sorriu pra mim, eu tinha sido sorteado com uma pequena fortuna, havia ganhado dos comunistas um bom presente de Natal, por isso, eu jamais poderei condenar a luta ou a causa deles; isso sim seria o maior dos contrassensos.
– Naquele momento, início de 67, eu já cursava o quarto ano de Economia. E como aluno dedicado e funcionário de um banco, eu conhecia bem o mercado financeiro, a bolsa de valores, as operações de câmbio e outros campos de investimento. O momento político era tenebroso, mas o econômico era extremamente promissor, propício aos pequenos, médios e grandes empreendimentos, havia muito capital estrangeiro circulando, isso tinha a ver com o avanço das empresas multinacionais. Eram os promórdios daquilo que ficou conhecido como o milagre brasileiro.
– Rapidamente e com certa segurança, eu consegui multiplicar o dinheiro. Continuei trabalhando no banco, mas investia em outras instituições para não provocar comentários, nem levantar suspeitas. Por sorte ou competência, prosperei muito, em pouco tempo.
– No final de 67, me casei com sua mãe, que, como você sabe, foi minha colega de faculdade. No ano seguinte você nasceu, e ao lado de vocês prosperei ainda mais, na verdade, prosperamos. Adquirimos indústrias, estabelecemos comércios, investimos no setor de transportes e na construção civil. Em menos de quinze anos constituímos um grupo econômico sólido e respeitado. Cada centímetro que você crescia representava um milhão de dólares a mais no nosso patrimônio. O resto da história você conhece...
– Essa é a minha história, meu filho. Não sei como você a recebeu e como ela vai repercutir no seu íntimo; não sei como vai digeri-la. Não acredito nessa conversa de empatia, de nos colocarmos no lugar do outro, afinal, ouvir uma história é muito diferente de vivê-la; refletir sobre ela é infinitamente inferior a senti-la pulsar dentro da gente. Sinceramente, não sei como você vai me ver a partir de agora, que conceito fará de mim. O que sei é que minha consciência me absolve e que desde o dia do assalto nunca mais tive aquele pesadelo – concluiu André.
No horizonte, surgiam os primeiros raios de sol, que com dificuldade rompiam a neblina e gradativamente destacavam as siluetas dos morros distantes.





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EZEQUIEL
 

Ezequiel não tinha medo. Não tinha medo do escuro, nem da água, muito menos de ficar sozinho. Ezequiel não tinha medo de nada. Aos 8 anos de idade já afrontava toda espécie de militar que encontrava pela frente. Atirava pedras e palavrões na direção das viaturas que via passar e saía correndo em direção ao mais seguro dos esconderijos, a casa de sua avó. Afinal de contas, ele era corajoso, mas não era nada bobo.
Detestava os militares, ou melhor, odiava-os, pelo simples fato de um dia, quando tinha 6 anos, ter visto um bando de homens fardados invadir sua casa e levar, à força, seu pai e sua mãe. E o que é pior... nunca mais trazê-los de volta.
Desde esse dia Ezequiel ficou sob os cuidados de sua avó materna, que morava na mesma rua em que ele residia com seus pais, no bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro.
Dois anos depois de seus pais terem sido levados pelos militares, ele ainda esperava por eles, afinal, enquanto eram empurrados para dentro dum camburão ambos repetiam: “Ezequiel não se preocupe, nós voltaremos. Vá pra casa da vovó e espere lá”.
Assim, todos os dias, por volta das 5 horas da tarde (hora que sua mãe costumava chegar do trabalho) ele sentava-se no alpendre da casa de sua avó – na rua Barão de Piracinunga, rua que dá acesso ao morro do Salgueiro – e lá ficava esperando até 7 ou 8 horas da noite, quando sua avó o chamava para o jantar.
Enquanto esperava seus pais, às vezes sentia sede e entrava rapidamente para beber água, algumas vezes encontrava sua avó chorando baixinho. Então, Ezequiel se aproximava dela e perguntava por que ela estava chorando, ela respondia que não era nada, apenas estava um pouco triste, coisas da idade. Ezequiel fazia-lhe um carinho com as mãos e outro com as palavras e corria de volta pro seu posto.
Dona Dulce – era esse o nome da avó de Ezequiel – chorava, não de uma tristeza qualquer ou de saudade, mas chorava por sentir, ou melhor, por saber – pois as mães sabem quando algo de ruim acontece aos seus filhos – que a espera daquela criança era em vão.
Dona Dulce tinha a certeza que sua filha e seu genro jamais voltariam, pois sabia que ambos eram militantes da esquerda, não desses que discutem teorias e livros, mas dos que vão para o “front” lutar por melhorias de vida para os pobres e miseráveis, dos que se sensibilizam com o sofrimento alheio e dividem o pouco que têm com os que não têm nada.
A certeza que Dona Dulce alimentava, quanto ao destino da filha e do genro, era produto da experiência, afinal ela – que nasceu no mesmo ano que a República – já havia vivido um momento muito semelhante àquele, em 1937. Era impossível, para ela, não comparar e perceber as semelhanças dos dois momentos: a atmosfera de histeria anticomunista, o golpe militar, as perseguições, as prisões, os exílios e as mortes.
Nas conversas que tinha com a filha e o genro sempre os advertia com relação aos perigos que existiam nas atividades políticas de que ambos participavam. Recordava episódios passados que tinha vivenciado, mas seu genro, tentando tranquilizá-la, sempre respondia: “Dona Dulce, minha querida, a História não se repete!”.
Então, dona Dulce – do alto da autoridade que sua idade permitia – retorquia afirmando que acreditava que da mesma forma como as primaveras se repetem sem jamais se repetirem as flores, os eventos históricos – mantendo sua singularidade – podem apresentar características semelhantes a eventos que ocorreram em outros tempos e em outros lugares.
Assim, da forma mais trágica e dolorida, dona Dulce viu confirmada suas idéias sobre a História. Naquele momento, ela tinha a convicção de que em algum lugar havia sido instituído um “Inquisidor-Mor” que julgaria sumariamente e condenaria à “fogueira” todas as supostas “bruxas”, inclusive aquelas que ela conhecia tão bem: sua filha e seu genro.
 O pai de Ezequiel era professor. Professor de História da Universidade Federal Fluminense, devoto de Paulo Freire. Acreditava que a Educação era o caminho mais fácil e curto para a emancipação, tanto política quanto econômica. Acreditava tanto nessa idéia que três dias por semana, depois de cumprir seu horário, ministrava aulas, voluntariamente e sem remuneração, para os funcionários de uma indústria que ficava próxima à Universidade.
A mãe de Ezequiel também era professora, uma excelente professora – diga-se de passagem, patenteada pela Academia – que por opção, ou melhor, por missão lecionava em uma Escola Pública dentro da comunidade do Salgueiro, isto é, próxima à sua casa.
 Na verdade, havia dois interesses, um público e um particular, por trás dessa decisão, da mãe de Ezequiel, de dar aula em uma Escola Pública.
O interesse público, por um lado, dizia respeito à possibilidade de viver o que acreditava, ou seja, contribuir, com o que ela tinha de melhor a oferecer, para a formação intelectual e a para a conscientização política dos menos favorecidos, dos deserdados, como gostava de falar.
Por outro lado, o interesse particular era infinitamente mais forte, porque se referia à oportunidade de chegar mais cedo em casa – às 17 horas – e desfrutar por mais tempo da companhia de seu único filho. Menino ativo, feliz, que desde a mais tenra idade já possuía um brilho diferente nos olhos.
Um brilho que sua mãe definia como inquiridor, investigativo, agudo, perspicaz. Não demorou para que Ezequiel confirmasse todas as impressões e definições maternas. Aos 11 meses começou dar os primeiros passos exploradores; aos 18 meses formulava as primeiras frases; com 2 anos e dez meses perguntou pra sua mãe por que o sabonete cor de rosa tinha a espuma branca; aos 6 ele já sabia ler; aos 7 anos queria saber por que o avião que era daquele tamanho voava e ele que era muito menor não... Ele continuou assim, investigando e questionando, mesmo depois de grande.
Em 1968 Ezequiel tinha dez anos e poucas lembranças de seus pais. Entre essas lembranças, as mais vívidas eram aquelas em que os três brincavam e se divertiam em alguma praia, ou nas gramas da Quinta da Boa Vista, ou soltando pipa no morro do Salgueiro, ou ainda na Praça Saens Pena, nas noites quentes.
Essas lembranças eram seguidas de perto por aquelas em que se via acompanhando seus pais em reuniões de adultos, nas quais estes conversavam sobre vários assuntos. Ele se lembrava de algumas palavras que eram repetidas frequentemente; lembrava-se claramente da palavra movimento, da palavra revolução, da palavra ditadura (que sempre vinha acompanhada de um palavrão) e de algumas outras.
Entre essas palavras, a que Ezequiel mais gostava era movimento. Ele não gostava da palavra revolução porque terminava em “ão” e o fazia lembrar de “não”, que era a palavra que ele menos gostava. E não gostava da palavra ditadura porque, observador que era, já tinha percebido que sua mãe, seu pai e todos os amigos deles também não gostavam dessa palavra.
Um dia Ezequiel perguntou pra sua mãe o que significava a palavra movimento. Sua mãe tentou responder, mas, como nessa época ele tinha acabado de completar 6 anos, antes mesmo dela concluir a segunda frase, ele já tinha desistido de tentar entender. O importante é que seu pai e sua mãe gostavam daquela palavra, portanto, deveria ser alguma coisa boa, pensava ele.
Poucos meses depois desse dia, pra ser mais específico em agosto de 1964, foi que aconteceu o episódio em que os militares invadiram sua casa e levaram seus pais.
O tempo passou, Ezequiel cresceu. Na mesma proporção que ele crescia, crescia também sua curiosidade, seu desejo de conhecer, sua sede de saber.   
Embora tenha sofrido muito com o desaparecimento dos seus pais, Ezequiel continuou a fazer progressos no campo intelectual, continuava querendo desvendar o mundo. Entrou pra escola, rapidamente aprendeu a ler e escrever. Quando fazia a 4ª série sua professora disse pra sua avó que ele era inteligente e tinha muita facilidade em aprender.
Dona Dulce nunca teve problemas com relação aos estudos de Ezequiel, desde pequeno ele gostava de ver e conhecer coisas novas, gostava de estudar e aprender. Aos 15 anos ele frequentava o 1º ano colegial, como se dizia na época. Ele continuava tendo facilidade com todas as disciplinas, mas gostava de História.
Ezequiel gostava muito particularmente de História Antiga, talvez por uma influência residual de seu pai, que sempre lhe contava histórias, lendas e mitos que tinham como pano de fundo o mundo antigo. Gostava principalmente do que ele considerava os Enigmas da História, aqueles assuntos ou temas, cujas interpretações ou explicações dos historiadores eram tão improváveis quanto às suas.
Entre seus temas prediletos estavam a construção das Pirâmides do Egito, a incrível cidade de Machu Picchu, a Ilha de Páscoa e seus Moais, o Stonehenge, Tenochtitlan (a cidade dos Deuses dos Astecas) e as misteriosas Linhas do Deserto de Nazca. Ezequiel acreditava ter uma hipótese que respondia às principais questões levantadas por esses monumentos: por que? como? para que?... No entanto, ele nunca expunha a ninguém sua hipótese e suas interpretações.
Ezequiel gostava de investigar, de conhecer coisas novas, de se aventurar, talvez essa fosse sua principal característica. Na verdade, seu espírito aventureiro era o único motivo de preocupação para dona Dulce. Desde os 13 anos o garoto já realizava expedições exploradoras pelo Rio de Janeiro.
Ezequiel explorou o Centro, a Lapa, Santa Tereza, a floresta da Tijuca, a Urca, a Rocinha, o Aterro do Flamengo, Botafogo, a Gloria, São João de Meriti, Bangu, a Penha, Piedade, Duque de Caxias, a Mangueira etc... Aos 15 anos ele conhecia o Rio e as redondezas como poucos cariocas adultos o conhecem.
Ezequiel ansiava por ampliar seu horizonte de exploração, porém, as circunstância, naquele momento, não permitiam: ele não tinha idade, nem dinheiro. Então, ele sonhava em viajar pelo Brasil, depois pela América e depois pelo mundo.
Pouco depois de completar 16 anos sua avó morreu, aos 85 anos. Ezequiel ficou sozinho no mundo, pois dona Dulce era toda a família que ele possuía. Naquele dia ele chorou, não de medo do futuro incerto, mas de gratidão por tudo aquilo que sua avó havia feito por ele, por tudo aquilo que haviam passado e suportado juntos.
Nessa época, ele já trabalhava como office-boy em uma conhecida agência de propaganda. Estudava de manhã e trabalhava à tarde. Foi uma amiga de dona Dulce, mãe do dono da agência, que havia conseguido aquele trabalho pra ele.
Ele gostava de trabalhar ali, gostava porque aquele era um ambiente criativo e porque reconhecia o poder que aquele instrumento – a propaganda – possuía. Gostava tanto daquele ambiente que, mesmo depois de cumprir seu horário de trabalho, ficava um tempo por ali, investigando e aprendendo.
Num desses dias em que ficou até mais tarde no trabalho, presenciou uma reunião em que se discutia uma campanha publicitária para uma rede de motéis (Atlântico Motéis); discutia-se especificamente o que escrever nos out-doors que o cliente queria espalhar pela cidade, com o propósito de inovar e aumentar o fluxo dos freqüentadores.
Depois de mais de 1 hora de peleja e nenhuma frase sequer que agradasse ao chefe, Ezequiel, meio tímido, perguntou se podia dar uma sugestão. O chefe respondeu que sim. Então ele perguntou o que achavam de:

“ATLÂNTICO MOTÉIS
Antes à tarde do que nunca”
   
Por alguns instantes a sala ficou em absoluto silêncio, todos voltaram seus olhares pra Ezequiel, que corou. Em seguida o chefe soltou uma gargalhada estrondorosa e disse que a ideia e a frase eram geniais, que estavam aprovadas e que seriam utilizadas.
No dia seguinte a campanha foi apresentada ao cliente que simplesmente adorou a ideia. Nesse mesmo dia, ele foi promovido de office-boy a assistente de criação.
Dois meses depois disso, o dono da rede de motéis entrou em contato com a agência para agradecer e renovar o contrato, pois, segundo ele, graças àquela campanha o faturamento da rede de motéis havia triplicado. Além disso, prometia levar mais trabalhos de suas outras empresas e de empresas de seus amigos.
Nessa época, Ezequiel tinha acabado de completar 17 anos, fazia o 3º ano colegial e se preparava para prestar o vestibular. Desde a morte de sua avó, ele morava sozinho naquela mesma casa da Tijuca. Ezequiel não gostava muito de festas, por isso, desde que foi promovido já havia conseguido economizar um bom dinheiro.
Com esse dinheiro, ele fazia planos de comprar uma moto, para que, assim que completasse 18 anos e tirasse habilitação, pudesse dar início ao que denominava “Expedição Brasil”, isto é, viajar mais livremente pelo território brasileiro e conhecer de perto toda a sua diversidade geográfica, étnica e cultural.
Um ano mais tarde, Ezequiel realizava seus planos: tirou habilitação e comprou uma moto. Agora, aguardava ansioso a chegada do carnaval para que pudesse fazer a primeira viagem da “Expedição Brasil”, como nunca tinha querido tirar férias, agora ia emendar o carnaval às férias. Ia ficar praticamente 40 dias viajando. Já tinha escolhido o destino, pretendia conhecer o litoral norte de São Paulo: Guarujá, Bertioga, São Sebastião, Ilha Bela, Maresia.
Ezequiel fez a programação e roteiro do primeiro dia, como ele tinha muito tempo, não tinha pressa de chegar a lugar nenhum. Queria simplesmente aproveitar cada segundo daquela viagem, visto que já alimentava o desejo de fazê-la há muito tempo. Sairia do Rio, na quarta-feira bem cedo, pela BR 101. Seguiria nela até Bertioga, onde pernoitaria e deixaria a moto, para, na quinta cedo, pegar a balsa Bertioga-Guarujá, com o propósito de acampar na prainha Branca, que, de acordo com um amigo paulista que trabalhava com ele, era um lugar maravilhoso, o mais bonito que já tinha visto.
    Naquela época, a prainha Branca, que fica no município do Guarujá, era uma praia praticamente deserta. Do lugar onde se desembarcava – que era o único lugar povoado naquela região – até a prainha Branca eram aproximadamente 6 km de trilha. Uma trilha sinuosa, por dentro da Mata Atlântica, que subia e descia um morro.
No final da trilha, os aventureiros eram recompensados com uma visão paradisíaca. Uma pedaço do mundo praticamente intocado. Uma praia de areias claras, levemente prateada, cercada, de um lado, por um Oceano, cujas águas tinham diferentes tons de verde, dependendo da profundidade; de outro lado, a praia era cercada por uma densa floresta de Mata Atlântica, que tinha resistido à cobiça humana.
Aquele ambiente parecia, de alguma forma, encantado pra ele. Durante todo aquele dia Ezequiel esteve sozinho naquela praia. Nadou, correu, dormiu, sonhou com aquela praia, acordou, ficou feliz por perceber que tudo aquilo não tinha sido só um sonho. Passou o dia como uma criança. Se lembrou dos dias felizes que passou com seus pais, se lembrou da sua avó. Sentiu saudade dos três, queria que eles estivessem ali, com ele.
A noite veio chegando, Ezequiel já havia armado sua barraca, recolheu lenha para acender uma fogueira, quando anoitecesse por completo, mas o fogo era pra espantar o frio e os bichos, caso ambos o ameaçassem. Caso contrário, não seria necessário, pois a noite era de Lua cheia e o céu estava absolutamente sem nuvens e repleto de estrelas.
    Ezequiel estava extasiado com aquele espetáculo da Natureza, nunca tinha estado tão próximo de Deus. Deitado na areia, observava a Lua, as estrelas e a chuva de estrela cadentes. Sentado, observava o brilho da Lua deslizar ou surfar sobre as cristas das ondas, que arrebentavam rumorosamente na areia.
Hipnotizado pelo barulho rítmico das ondas – barulho que para ele mais parecia a respiração do mar – Ezequiel deixou sua visão se perder no horizonte e assim permaneceu por mais de duas horas. Até que o inesperado, ou melhor, o inacreditável aconteceu.
Ezequiel viu emergir do Oceano, a uns 100 metros do ponto em que estava, a coisa mais espetacular que já tinha visto. Um objeto de aproximadamente 20 metros de largura por 10 de altura. Porém o que mais o impressionou não foi o tamanho, mas a matéria de que era feito.
O objeto se parecia com uma pedra preciosa lapidada. Uma gigantesca safira azul, com as bordas arredondadas, que irradiava uma luz intensa, mas que não agredia os olhos. O objeto não emitia ruídos, apenas uma suave vibração, o que o fez lembrar da expressão “sombra sonora” que já tinha ouvido em uma das músicas de Raul Seixas. Muitas vezes ele se beliscou, mas não era um sonho, aquilo realmente estava acontecendo.
    De repente o objeto começou a se mover lentamente em direção à praia, em direção a Ezequiel, que permaneceu imóvel. O objeto se aproximou lenta e continuamente até que, a uns 3 metros dele e a 1 metro da altura do chão, parou.
    Naquele momento sublime, momento em que dois mundos se encontravam e estabeleciam contato, Ezequiel murmurou: “– Eu  sabia!”. Para ele, aquele fenômeno que estava presenciando comprovava, irrefutável e absolutamente, todas as suas ideias e hipóteses com relação às Pirâmides do Egito, à Machu Picchu, à Ilha de Páscoa, às linhas de Nazca etc., etc., etc....
    Enquanto pensava isso, diante dos olhos de Ezequiel surgiu – da mesma forma como surge um buraco num plástico, quando o aproximamos de um ponto incandescente – uma abertura naquele magnífico objeto. Daquela abertura jorrava uma luz opalina muito suave.
    Em nenhum momento Ezequiel teve medo. Todavia, se alguém o visse naquele instante acreditaria que ele estava morrendo de medo, pois todos os pelos do seu corpo estavam de pé. Mas não era medo, era, simplesmente, o efeito do magnetismo daquele objeto.
    Ezequiel esperou alguns instantes. Olhou pra esquerda, olhou pra direita, como que se despedindo da Terra. Olhou pra trás como se olhasse pro seu passado, lembrou de tudo que havia vivido... lembrou também que não tinha raízes, que nada o prendia ali. Sentiu pulsar toda a força do seu espírito investigador, aventureiro, explorador...
    Então, começou a caminhar lentamente em direção ao interior daquele objeto e a cantar partes de sua música predileta:
“Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Mesmo quando terá sido o óbvio”
    Poucos segundos depois de Ezequiel entrar naquele objeto, a abertura por onde ele havia entrado desapareceu da mesma forma que havia aparecido. Em seguida, o objeto mudou de cor, de azul passou pra o vermelho, assemelhando-se a um grande rubi. Mais alguns segundos se passaram e, então, o objeto se desmaterializou, se desintegrou – como se desintegra uma bolha de sabão –, porém sem deixar o menor vestígio.




“Olhei,  e  eis  que, no   firmamento  que  estava
por    cima    da       cabeça     dos    querubins,
apareceu sobre eles uma como pedra de safira
semelhando     a     forma      de     um      trono.
Olhei,  e eis quatro  rodas  junto  aos querubins,
uma     roda      junto      a     cada       querubim;
o      aspecto     das      rodas     era      brilhante
c o m o           p e d r a           d e          b e r i l o.
Q u a n t o         a o           s e u        a s p e c t o,
tinham    as    quatro    a    mesma     aparência;
e r a m         c o m o        s e         e s t i v e s s e
u m a      r o d a      d e n t r o      d a      o u t r a”.

Ezequiel 10: 1-22



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Ernesto


Meu nome é Ernesto Gonçalves de Oliveira. Nasci em uma família pobre, passei algumas dificuldades, mas nunca passei fome – o que, neste mundo, significa ser um privilegiado, um abençoado –, isso, graças ao esforço de minha mãe, que sempre batalhou duro pra nos sustentar. Não conheci meu pai... ainda bem, pelo menos assim não tive a oportunidade de realizar meu desejo de matá-lo.
Acho melhor voltar um pouco mais no tempo e contar minha história do começo...
Minha mãe e meu pai moravam em uma cidade do interior, no centro de um Estado do interior. Se conheceram na praça (único ponto de encontro daquela cidade e de muitas outras pelo Brasil a dentro, naquele tempo e até hoje) e lá mesmo se apaixonaram e namoraram. Namoraram tanto e tão intensamente que minha mãe ficou grávida de mim.
Por temerem a reação de meus avós maternos, católicos ortodoxos da velha cepa, minha mãe e meu pai resolveram fugir pra uma cidade grande. Então, juntaram seus poucos pertences e numa madrugada, sem avisar, nem deixar cartas ou se despedir, vieram pra cá. Isso aconteceu em meados de 1978.
 Logo que aqui chegaram, meu pai se empregou numa grande loja de móveis e eletrodomésticos da época – Carlos Saraiva –, pois, segundo minha mãe, ter a capacidade de vender era o máximo que se podia exigir da colossal inteligência de meu pai. Por estar grávida e não conseguir trabalho fixo, minha mãe teve que se virar fazendo bicos para a vizinhança: costurando, lavando roupas, cuidando de crianças e faxinando casas, etc.
Cinco meses depois de chegarem aqui e cinco semanas antes de eu nascer, meu pai, talvez por já ter adquirido uma certa experiência no quesito fuga, resolveu fugir com uma de suas clientes. E assim deixou minha mãe grávida, nas vésperas do parto, sozinha, desamparada, cercada de pessoas desconhecidas, numa cidade ainda mais desconhecida pra ela.
Posso tranquilamente dizer que a fuga de meu pai foi o terceiro susto ou baque que sofri – o primeiro foi quando minha mãe se desesperou ao perceber que estava grávida de mim, o segundo foi quando, meu pai e minha mãe, resolveram fugir de meus avós –, isso significa que eu já tinha adquirido três traumas e ainda faltavam um mês e uma semana pra eu nascer.
No dia 25 de dezembro eu nasci. Uma bela data pra se nascer, mas meu nascimento não foi tão tranqüilo nem tão auspicioso quanto o do Cristo. Digo isso, pois, não havia o “José”, nem os Três Reis Magos, tampouco ouro, mirra e incenso (ou qualquer outro presente) e o mais importante: não havia nenhuma Estrela de Belém ou luz anunciando o meu nascimento. Muito pelo contrário...   
No exato momento do parto, houve uma queda de energia e o Centro Cirúrgico onde eu estava nascendo ficou às escuras. Naquele momento, naturalmente minha mãe ficou apreensiva, nervosa, percebendo toda aquela frenética movimentação de médicos e enfermeiros para que uma fonte de luz alternativa fosse providenciada (veja bem: faltou energia, não na cidade, no bairro ou no hospital inteiro, mas apenas – e o apenas é toda a diferença – no lugar onde eu nascia). Pronto! Mais um trauma, o quarto. Inclusive, de agora em diante, deixo por sua conta essa contagem.
Um mês depois de me colocar no mundo minha mãe já estava à procura de um trabalho que garantisse o nosso sustento, mas para isso foi obrigada a me deixar sob os cuidados de uma vizinha, dona Sebastiana, porque morávamos na periferia e naquela época não havia creches nas periferias (como se houvesse hoje).
Dona Sebastiana era uma senhora de aproximadamente 35, 40 anos, um pouco gorda, desalinhada, não era má, mas era negligente: a pachorra em forma de gente. Dona Sebastiana tinha dois filhos pequenos: Mateus (1 ano) e Marcos (3 anos) – pra mim Hitler e Mussoline, visto que a brincadeira predileta de ambos era me bater pra me ver chorar.
Tudo que minha mãe levava de alimento pra mim Dona Sebastiana dividia com seus filhos. Começou dividindo o leite de minha mamadeira, depois dividiu minhas bolachas e meus biscoitos, e dividindo continuou enquanto frequentei sua casa, ou seja, por mais de oito anos.
Hoje posso dizer que, desde muito cedo, recebi lições marcantes sobre política, pois conheci na prática e na pele os dois principais regimes políticos do século 20.
O Capitalismo me ensinou que a importância de um indivíduo está diretamente relacionada ao seu poder de consumo, isso ficou evidente pra mim, pois minha mãe havia sido obrigada a colocar minha vida nas mãos de uma desconhecida, para que esse estranho sistema – no qual ter é ser – aceitasse nossa existência e não nos “deletasse” e enviasse à lixeira da indigência, como freqüentemente faz com milhões e milhões de seres humanos.
Por outro lado, com o Comunismo aprendi que em qualquer regime político que se materialize sempre vai haver os privilegiados, os parasitas, que “mamam” no Estado ou se beneficiam do trabalho alheio. Era exatamente isso que acontecia na casa de dona Sebastiana – que depois de adulto passei a considerar uma espécie de território soviético ou cubano –, enquanto Mateus e Marcos mamavam literalmente em dona Sebastiana, eu, além de não ter esse privilégio, ainda era obrigado a assistir à expropriação de meus bens – leite, bolacha, frutas e ainda a terça parte do salário de minha mãe (era essa quantia que dona Sebastiana cobrava pra cuidar de mim) – por parte do Estado, ou melhor, de dona Sebastiana, que os repartia “igualitariamente” entre os membros daquele regime.
Por isso, quando alguém vinha me falar de política, eu encurtava a conversa afirmando que conhecia bem os dois regimes e que detestava ambos com a mesma intensidade.
Dona Sebastiana tinha um vício, tão avassalador quanto a heroína: a televisão. Quando minha mãe me deixava em sua casa, antes mesmo das 7 horas da manhã, a televisão já estava ligada e permanecia assim até hora que minha mãe me buscava, isto é, por volta das 20 horas. Detalhe: dona Sebastiana sempre colocava o volume da televisão bem alto para que, de qualquer cômodo da casa, ela pudesse ser ouvida.
A compulsão de dona Sebastiana por televisão tinha um lado bom (pelo menos era o que eu acreditava quando era criança): todas as manhãs, Mateus, Marcos, Dona Sebastiana e eu assistíamos a uma sessão de desenhos animados.
Eu gostava de todos os desenhos, especialmente os de super-heróis. Eu sempre achava que era um deles. Assim, na segunda-feira eu era o Super-Homem; na terça eu me transformava no Homem de Pedra; na quarta eu era o The Flash; na quinta, Homem de Ferro; na sexta, o Thor... Graças a Deus nunca tive vontade de ser a Mulher-Maravilha.
Mas, o importante disso tudo é que, desde os 3 ou 4 anos, eu desejei ter super poderes. Muitas vezes sonhei que tinha adquirido um ou vários poderes; muitas vezes acordei acreditando no sonho, mas nunca falei isso pra ninguém. Afinal, não contar pra ninguém que se tem super poderes e manter sua identidade social em segredo são duas das condições pra se tornar um super-herói.
O fato é que, alguns anos mais tarde – quando eu já tinha entre 14 e 15 anos – eu adquiri um super poder. Não, não adquiri super força, nem a capacidade de voar; também não me tornava invisível, nem possuía raios, nada disso. Eu simplesmente adquiri a capacidade de ler o pensamento das pessoas, não qualquer pensamento, somente aqueles que de alguma forma estavam relacionados a mim.
A primeira vez que tal poder se manifestou eu estava na escola, cursava a 8ª série. Antes, porém, de contar como aconteceu, é preciso fazer uma pequena digressão...
Talvez o fato de meu pai ter nos traído e abandonado quando eu ainda estava no ventre se minha mãe tenha me marcado tão profundamente que jamais fui capaz de confiar ou acreditar em outro ser humano que não fosse minha mãe.
Por isso, desde criança minha companhia predileta sempre foi e continua sendo a solidão (solidão que, a partir da adolescência, muitas vezes esteve acompanhada de um livro). Então, partindo do princípio que a maioria das pessoas acredita na ideia de que o homem é um animal social, penso que sempre fui visto pelas outras pessoas como um estranho, um ser antinatural, antissocial.
O poder que adquiri confirmou essa minha hipótese. Como eu estava dizendo, a primeira vez que o meu poder de ler pensamentos se manifestou eu estava na escola. Foi assim: o sino do recreio tocou – com exceção de mim, todos os alunos estavam alvoroçados, porque faltavam apenas dois dias pra entrarmos de férias -, então, um grupo de “colegas” de sala, tendo à frente um garoto chamado Júlio, veio até minha cadeira e me chamou pra ir jogar futebol no pátio, mas pra não contrariar meu hábito de ficar só e também pra não ser ridicularizado diante de toda a escola ao apresentar minha absoluta falta de habilidade esportiva, recusei terminantemente ao convite. Porém, com minha recusa, desgostei vários colegas, especialmente Júlio, que havia me convidado com o propósito de retribuir a gentileza das colas que eu lhe dava. Foi nesse momento que aconteceu...
No exato instante em que recusei, Júlio olhou nos meus olhos, e, sem dizer uma palavra ou externar qualquer emoção, pensou:
– Esse imbecil deve achar que é melhor do que a gente só porque sabe matemática. Otário! Não tem nenhum amigo, só fica e anda sozinho, deve ter algum problema mental.
Li cada uma dessas palavras na mente de Júlio, que não insistiu, apenas virou as costas e saiu, seguido de todos os outros colegas.
Convivo com esse poder há aproximadamente 18 anos. Com o tempo aprendi a relevar o que eu lia nos pensamentos dos outros, afinal de contas, como já disse, desde o ventre materno venho nutrindo uma profunda descrença com relação aos seres humanos. Assim, quem não espera nada não pode se decepcionar. Na verdade, durante esse tempo, tive até algumas boas surpresas, ao ler na mente de algumas pessoas, das quais eu nada esperava, considerações positivas ao meu respeito. No entanto, como você sabe, a exceção só confirma a regra. Diante disso, continuei desconfiando de todos e preferindo a solidão.
Ontem, porém, me aconteceu algo surpreendente: eu adquiri mais um poder. Assim como o outro, um poder, por assim dizer, psíquico. Você pode não acreditar, mas adquiri o poder de enxergar o passado da pessoa na qual eu estiver concentrando minha atenção. Eu simplesmente olho pra pessoa e num instante vejo, como numa televisão, todos os acontecimentos que foram determinantes na vida daquela pessoa. Vejo todos os eventos que contribuíram para que aquela pessoa estivesse ali, naquele lugar e naquele momento, em minha frente.
Fiquei um pouco impressionado quando aconteceu a primeira vez, por ver aspectos íntimos da vida alheia, mas a impressão logo se desvaneceu, afinal vivemos na era da invasão da privacidade. Se você quiser, posso relatar dois exemplos pra ilustrar...
Ontem, entrei num ônibus, por volta das 7 horas da noite, e me sentei em frente a uma mulher jovem, branca, cabelos castanhos claros, que vestia uma mini-saia jeans, uma blusa transparente preta, através da qual se podia ver seu sutiã igualmente preto, uma jaqueta jeans e calçava um sapato de salto cujas tiras subiam trançando-se por toda sua panturrilha. No primeiro instante, desviei o olhar, mas alguma coisa na fisionomia daquela mulher me chamou a atenção: era uma tristeza, uma amargura profunda em seu olhar.
Então, enquanto ela olhava pela janela do ônibus, fixei minha atenção em seu rosto por alguns segundos, e, como num passe de mágica, vi suceder retrospectivamente, diante dos meus olhos, do presente para o passado, imagens dos acontecimentos que tinham marcado indelevelmente a vida daquela mulher.
Assim, no começo deste ano – sei a data pois enxerguei um calendário na parede do quarto sujo onde a cena se desenrolava – a vi apanhar de um homem, que a xingava de vagabunda, retirava todo o dinheiro que havia em sua bolsa e dizia que ela estava tentando enganá-lo, passá-lo pra trás (supus que aquele homem era um cafetão); na sequência, a vi chorar compulsivamente sobre o túmulo de sua mãe (cuja campa trazia as datas 1952 – 1994), pedindo desculpas por não ter conseguido lhe dar uma vida melhor, nem pagar um tratamento médico adequado que pudesse tratá-la da tuberculose; depois a vi, com aproximadamente 13 anos, chorando escondida, por ter sido violentada por um tio; a vi, também, com 8 ou 9 anos de idade, assistir a seu pai agredir verbal e fisicamente sua mãe; por fim, já sensibilizado por tudo aquilo que tinha visto aquela mulher passar, chorei ao assistir a uma cena em que aquela mulher aparecia com 3 ou 4 anos chorando de fome até desfalecer e sua mãe desesperada sem ter nenhum alimento pra lhe oferecer.
Depois de assistir a todos aqueles quadros, pude entender toda a tristeza e a amargura que transbordavam dos olhos daquela mulher.
O outro exemplo que vou mencionar aconteceu hoje, enquanto eu caminhava pelo centro da cidade. Eram mais ou menos 10 horas, eu caminhava sem destino e num determinado momento resolvi atravessar a rua. Aguardei que o sinal fechasse e comecei a travessia, de repente um carro avançou uns 40 centímetros além da faixa de contenção, o que me fez parar imediatamente e olhar na direção do motorista daquele carro (diga-se de passagem, um carro importado, de luxo), que gesticulou como que pedindo desculpas pelo deslize. No entanto, ao olhar pra aquele homem, vi muito mais do que o seu pedido de desculpa em forma de gestos... vi todo o seu passado.
Era um homem de aproximadamente 40 anos, semblante tranqüilo e feliz, vestindo um terno preto, sobre uma camisa cinza escura e gravata prata. Na primeira cena que visualizei, aquele homem assinava os papéis de sua promoção à presidência de uma empresa multinacional (isso há 9 anos atrás, pois havia sobre a mesa um jornal que trazia na capa uma foto gigantesca do atentado de 11 de setembro); logo depois, vi aquele homem, feliz, desembarcar na Inglaterra onde se pós-graduaria em Administração; também o vi ganhar um carro novo como presente por sua aprovação no vestibular da Universidade Mackenzie de São Paulo; o vi, com aproximadamente 12 anos, se divertindo, encantado, na Disneylândia; por último, o vi, aos 3 ou 4 anos, em um quarto repleto – do chão ao teto – dos mais variados e caros brinquedos. Diante dessas imagens, compreendi a sua tranqüilidade e a sua expressão de felicidade.
É por causa desses poderes, doutor, que vim procurá-lo... Gostaria que, como homem de ciência, me dissesse se realmente possuo esses poderes – ou se tudo isso não passa de produto da minha imaginação...
E o psiquiatra, ajeitando-se na cadeira, calmamente perguntou:
– O senhor tem alguma objeção em passar alguns dias aqui conosco, para que possamos fazer alguns exames e conversar um pouco mais?
– Não tenho objeção! Posso ficar o tempo que for necessário, respondeu o homem.
Então, o médico chamou um enfermeiro e o pediu que instalasse aquele homem em um quarto. Antes que o enfermeiro saísse, o médico o pediu para que, depois que tivesse acomodado aquele homem, voltasse ao seu consultório pra receber algumas orientações.
Quinze minutos depois o enfermeiro retornou ao consultório e, de imediato, o médico lhe perguntou qual o sedativo mais forte que havia disponível naquele momento, o enfermeiro lhe respondeu e em seguida o médico prescreveu uma dose cavalar do sedativo em questão para o homem que acabara de sair de seu consultório e ser internado naquele Hospital Psiquiátrico.
 Curioso, o enfermeiro então perguntou ao médico se ele já tinha algum diagnóstico. O médico respondeu que não, no entanto, justificou a aplicação daquela dose incomum de sedativo afirmando que o paciente estava bastante agitado, visto que andou de um lado para o outro dentro do seu consultório durante as 2 horas em que lá permaneceu.
  – Além disso, acrescentou o psiquiatra, o paciente me disse que possui dois super poderes: o de ler mentes e o de ver o passado dos outros. Como se não bastasse, se apresentou a mim como sendo Ernesto Gonçalves de Oliveira, porém, em seu documento de identidade, que aqui está, consta o nome Simão Bacamarte.




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A CHAVE



"Boa noite!
Meu nome é Hermes.
Primeiramente, gostaria de agradecer a oportunidade de compartilhar com as senhoras e com os senhores, presentes aqui nesta reunião, meus conhecimentos acerca de um tema que me é tão caro e que há muitos e muitos anos venho investigando exaustiva e ininterruptamente. Acredito que seja um dos objetos de estudo mais instigantes e complexos que um pesquisador possa escolher. Refiro-me ao átomo.
Levando em consideração que as senhoras e os senhores não são físicos ou cientistas, vou procurar relatar da forma mais clara e objetiva possível os avanços que obtive mais recentemente em minhas experiências no âmbito da física quântica, como os modernos a denominam.
Uma vez que meu tempo é exíguo, pretendo não me alongar com conceituações desnecessárias, no entanto, para melhor compreensão por parte das senhoras e dos senhores, alguns esclarecimentos são necessários.
Há mais de um século os físicos Ernest Rutherford e Niels Bohr suspeitaram que os átomos não eram constituídos apenas por partículas, por assim dizer, sólidas. Eles perceberam que a energia presente ou constituinte da eletrosfera representava grande parte do volume de um átomo.
Depois disso, alguns físicos, entre eles De Broglie, Plank, Heinsenberg, Einstein, aprofundaram os estudos e admitiram o princípio da dualidade onda-partícula ou dualidade matéria-energia. Em outras palavras, esses cientistas passaram a considerar a possibilidade de que as partículas constituintes dos átomos pudessem se comportar ora como ondas e ora como partículas mesmo.
Assim, por mais estranho e paradoxal que pareça, senhoras e senhores, quando investigamos o universo do átomo, que é considerado a origem, o princípio de tudo que há de concreto, descobrimos que na verdade não há nada de sólido; muito pelo contrário, somos forçados a admitir que no âmbito subatômico, num ou noutro momento, tudo é energia.
Diante disso, podemos dizer, de maneira extremamente simplificada, que em última instância o que diferencia, por exemplo, um átomo de carbono de um átomo de hidrogênio é o comprimento de suas ondas. Assim, da mesma forma que as cores da luz e os tons do som são determinados pelas frequências de suas ondas, cada átomo pode igualmente ser caracterizado por sua frequência.
Desculpem por ter me alongado, mas esses esclarecimentos são indispensáveis para que possam compreender minhas experiências pessoais em torno dos átomos. No entanto, de tudo o que foi dito até aqui, o importante é que as senhoras e os senhores retenham apenas a ideia de que no universo subatômico tudo é energia e que um átomo diferencia-se de outro apenas pelo comprimento de sua onda.
Pois bem! Se o que diferencia um átomo do outro é a frequência, então, pensei depois de anos e anos estudando os átomos, a chave da matéria e, consequentemente, de todo universo está em conseguir manipular a frequência dos átomos. E é no campo da manipulação da frequência dos átomos, senhoras e senhores, que venho realizando minhas experiências e obtendo alguns avanços significativos.
Não pensem, porém, que este é um tema novo e que sou o pioneiro nessa seara. A novidade, se houver alguma, está mais na forma, por assim dizer, científica como eu abordo o objeto e realizo as experiências.
Aliás, existem evidências de que, desde a antiguidade, alguns homens de gênio já vislumbravam esta verdade e realizavam algumas experiências e progressos nesse campo. Estou me referindo aos alquimistas e à transmutação. Afinal, tentar converter chumbo em ouro é prova mais do que sufuciente de que tinham conhecimento da possibilidade de manipular a frequência dos átomos.
Além disso, há testemunhos de pessoas que presenciaram a atuação do maior manipulador de frequência de átomos de todos os tempos. Esses relatos fizeram com que esse exímio manipulador ficasse conhecido no mundo inteiro. O nome desse exímio manipulador, segundo tais relatos, era Jesus e seu poder de manipulação era tão intenso que suas realizações foram e continuam sendo consideradas verdadeiros milagres.
Para não me alongar, vou mencionar apenas duas dessas incríveis manipulações: a conhecida passagem em que Jesus converteu água em vinho (considerado seu primeiro milagre) e o não menos conhecido episódio em que ele caminhou sobre as àguas. No primeiro exemplo, Jesus manipulou a frequência dos átomos da água; no segundo, ele manipulou a frequência dos átomos de seu próprio corpo.
Como ele fez isso? As senhoras e os senhores devem estar se perguntando... e eu lhes respondo que da mesma forma que faço para levitar e atravessar paredes: pelo simples poder da vontade. Basta acreditar e querer verdadeira e intensamente. Por mais absurdo que possa parecer, senhoras e senhores, podem acreditar, a vontade é a chave tudo.
A propósito, segundo alguns relatos, o próprio Jesus teria dito que com um mínimo de fé nada nos seria impossível. E o que é ter fé senão acreditar firmemente em algo? Porém, para os mais céticos, sugiro a leitura do precioso livro do professor Ernesto Bozzano: “Pensamento e Vontade”, no qual, por meio de rigorosas e repetidas experiências, fica demonstrada de modo irrefutável a relação entre o pensamento, a vontade e a matéria.
Mas vamos ao relato das minhas experiências, que é o motivo pelo qual estou aqui esta noi...”
– Norma... Norma... Norma, está tudo bem com você? – perguntou o senhor Hélio.
– Tudo bem “seu” Hélio – respondeu Norma saindo de um transe profundo e ainda meio zonza.
– Está chegando a hora de encerrarmos nossa reunião e gostaria de pedir a todos os médiuns para que não permitam a manifestação de mais nenhum espírito esta noite – solicitou o senhor Hélio, com a autoridade que os 40 anos de ativa participação no movimento espírita lhe concediam.
– Dona Célia, a senhora poderia fazer a prece de encerramento para nós?
– Claro “seu” Hélio!
– Deus de infinita bondade, agradecemos a oportunidade de estarmos aqui mais uma vez reunidos em Teu nome, estabelecendo esse intercâmbio com o mundo espiritual, com o propósito de ajudarmos e sermos ajudados. Esperamos ter contribuido esta noite para o cumprimento do programa traçado pelos Mentores Espirituais dessa Casa. Assim, suplicamos, Deus, que continue iluminando os nossos pensamentos e guiando os nossos passos, hoje e sempre. Que assim seja!
– Que assim seja! – repetiu o senhor Hélio e os outros participantes da sessão espírita.
– Antes que dispersássemos, gostaria que os médiuns psicógrafos lessem em voz alta as mensagens que receberam, para que possamos compartilhar as dádivas e os ensinamentos obtidos por meio desse “correio celestial”. Podemos começar com a sua, Norma?
– Pois não, “seu Hélio”.
Depois de tomar um gole d’água e pigarrear, Norma começou a leitura:
“Boa noite!
Meu nome é Hermes.
Primeiramente, gostaria de agradecer a oportunidade de...”

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