HISTÓRIA

HISTÓRIA E LITERATURA

          Acreditamos que a Literatura pode, sutil ou ostensivamente, estimular a aceitação de uma representação e tem a capacidade de suscitar ódios, medos, desejos, em outras palavras, práticas sociais. Portanto, conhecer, mesmo que superficialmente, a relação da Literatura com a sociedade e com a História é imprescindível à qualquer historiador, posto que o trabalho histórico, segundo Chartier, deve ser considerado “como um trabalho sobre a relação entre representações e práticas” (p.87).
          Além disso, Chartier assevera que a função precípua do historiador é “reencontrar essas representações [...], na sua irredutível especificidade, isto é, sem as envolver em categorias anacrônicas nem as medir pelos padrões da utensilagem mental” [de uma diferente época] (1990, p.37). Garante ainda que, para se produzir um conhecimento histórico,
          "O essencial já não está, pois, em distinguir entre esses graus de realidade – o que durante muito tempo fundou a oposição entre uma história socioeconômica que atingia o real através dos materiais-documentos e uma história dedicada às produções do imaginário –, mas em compreender como a articulação dos regimes de prática e das séries de discursos produz o que é lícito designar como “realidade”, objeto da história" (CHARTIER, 1990, p.80).
          De acordo com Roger Chartier, as representações do mundo social, “à revelia dos atores sociais, traduzem suas posições e interesses objetivamente confrontados e [...], paralelamente, descrevem a sociedade tal como pensam que ela é, ou como gostariam que fosse” (1990, p.18).
          As diferentes práticas (políticas, sociais, discursivas, culturais), segundo Chartier, são produtoras das representações que, em conjunto, compõem e constroem o que se convencionou denominar “realidade”. Práticas estas que, “pluralmente, contraditoriamente, dão significado ao mundo” (CHARTIER,1990, p.27).
          A Literatura mantém com a sociedade uma relação muito estreita, consequentemente mantém o mesmo tipo de relação com a História. De acordo com Edward Said (2001), não podemos concordar com a suposição de “que a literatura e a cultura são, política e até historicamente, inocentes”. Muito pelo contrário, devemos ter consciência que “a sociedade e a cultura literária só podem ser entendidas e estudadas juntas” (2001, p.39).
          Segundo Sandra Jatahy Pesavento, atualmente “nos situamos no meio de uma complexificação e estilhaçamento da realidade, onde é preciso encontrar novas formas de acesso para compreendê-la”. Diante disso, não podemos desprezar – sob pena de sermos considerados no mínimo negligentes, por historiadores e estudiosos no futuro – um meio de acesso à realidade tão rico e privilegiado quanto a Literatura.
          Ainda conforme Pesavento (2006), o historiador tem na Literatura uma fonte privilegiada, “porque lhe dará acesso especial ao imaginário, permitindo-lhe enxergar traços e pistas que outras fontes não lhe dariam”.
          "A sintonia fina de uma época [...] pode ser encontrada em um Balzac ou em um Machado, sem que nos preocupemos com o fato de Capitu, ou do Tio Goriot e de Eugène de Rastignac, terem existido ou não. Existiram enquanto possibilidades, como perfis que retraçam sensibilidades" (PESAVENTO, 2006).
         Para adotar a Literatura como fonte, conforme Pesavento (2006), o historiador precisa assumir “posturas epistemológicas que diluam fronteiras e que, em parte, relativizem a dualidade verdade/ficção, [...], ciência ou arte”. E, ainda, consoante Roger Chartier, ter consciência que "nenhum texto – mesmo aparentemente mais documental, mesmo o mais ‘objetivo’ [...] – mantém uma relação transparente com a realidade que apreende. O texto literário ou documental, não pode nunca anular-se como texto, ou seja, como um sistema construído consoante categorias, [...], que remetem para suas próprias condições de produção" (1990, p.63).
          Pesavento afirma que o diálogo entre a História e a Literatura se dá por meio do Imaginário, que, de acordo com uma interpretação mais antropológica, contém traços de permanência na construção imaginária do mundo; enquanto que para uma interpretação mais historicizante, os imaginários são construções sociais, históricas, datadas, específicas, com diferentes sentidos ao longo do tempo e do espaço.
          Tanto a Literatura quanto a História, segundo Sidney Chalhoub e Pesavento, têm como referente o real, quer seja para confirmá-lo ou negá-lo. Ambas constroem sobre ele outras versões, “representações que se referem à vida e a explicam” (PESAVENTO, pg.4, 2006). “Entretanto, as narrativas históricas e a literária guardam com a realidade distintos níveis de aproximação (PESAVENTO, 2006, pg.20)
          Todavia, Pesavento nos lembra que a História se aproxima da Literatura em outro aspecto, isto é, ambas são narrativas; assim como o romancista ou o ficcionista, o historiador também mediatiza mundos, "reúne os dados, seleciona, estabelece conexões e cruzamentos entre eles, elabora uma trama, apresenta soluções para decifrar a intriga montada e se vale das estratégias de retórica para convencer o leitor, com vistas a oferecer uma versão o mais possível aproximada do real acontecido" (PESAVENTO, 2006).
          A pesquisa histórica, conforme Michel de Certeau, é diferente do processo de construção da escrita da História. Segundo Certeau, a escrita impõe uma inversão às regras da investigação; além disso, a escrita da História diferencia-se da pesquisa histórica, pois enquanto esta patenteia as lacunas, aquela as encobre ou as substitui “por uma presença de sentido” (2002, pg.94). Logo – por dar lugar à falta e a esconder – a escrita da História pode ser considerada, de acordo com Certeau, uma representação.
          No mesmo sentido aponta Pesavento ao afirmar que “na urdidura do texto e da argumentação, na seleção dos argumentos e das próprias marcas do passado erigidas em fontes é que se coloca a atuação ficcional do historiador” (2006, pg.20). Em outras palavras, Pesavento afirma que, durante o processo de escrita da história ou narrativização, o historiador transforma em ficção a experiência da história.
          Os historiadores, ao empreenderem narrativas, segundo Pesavento, criam um tempo – que não é passado nem presente: o tempo histórico – e elaboram “versões plausíveis, possíveis, aproximadas, daquilo que teria se passado um dia”, atingindo no máximo, por meio desse processo, a verossimilhança, jamais a veracidade.
          Por ser versões verossímeis do acontecido, a narrativa histórica, consoante Pesavento, “se aproxima, perigosamente, da definição aristotélica da poesia” (literatura=ficção / história=verdade). No entanto, Pesavento nos lembra que até o século XVI a palavra ficção significava “criação a partir do que existe”; assim, a palavra ficção deixa de significar “pura fantasia” e, com isso, essas duas formas de narrativa, esses dois meios de se atingir o conhecimento se aproximariam ainda mais.
          Diante disso, podemos dizer que o que diferencia a narrativa histórica da narrativa ficcional ou da Literatura é a intenção e o esforço do historiador de se aproximar da verdade, do acontecido e da necessidade de submeter sua interpretação do passado à testagem, à comprovação. Para isso o historiador – além se sinceridade e honestidade – se utiliza de vestígios, de traços – documentos e fontes – que exercem uma espécie de controle, de limite à sua imaginação e, consequentemente, à sua escrita.

Einstein Augusto

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Identidade e Diferença: a perspectivas dos estudos culturais,
Kathryn Woodward, Tomaz Tadeu da Silva e Stuart Hall.
Apontamentos por Einstein Augusto
          
         Classificamos o mundo e nossas relações em seu interior por meio de representações, segundo Kathryn Woodward. Representações que possibilitam a um indivíduo ou a grupo marcar simbolicamente sua diferença em relação a outros indivíduos ou grupos e, concomitantemente, constituir socialmente sua identidade.
          Assim, podemos dizer que a identidade é construída simbólica e socialmente em relação à diferença, ao “outro” ou a outras identidades; a identidade é marcada pela diferença e esta é sustentada pela exclusão. Logo, a identidade está vinculada a condições sociais e materiais, posto que a marcação simbólica – meio pelo qual damos sentido às práticas e relações sociais – da diferença dificulta ou impossibilita o acesso do grupo marcado aos bens sociais e às vantagens materiais.
          De acordo com Woodward, há basicamente duas perspectivas com relação à identidade: a essencialista e a não-essencialista. Esta focaliza as identidades a partir das diferenças e das mudanças que ocorrem ao longo do tempo; aquela concebe a identidade como fixa e imutável, fundamentada na Biologia, na História ou na Cultura.
          Na perspectiva dos estudos culturais, a globalização e o conseqüente processo de aceleração da migração – que produz e contesta identidades – desencadearam uma “crise da identidade” cuja principal característica é a fragmentação das grandes categorias identitárias, como classe social, identidade nacional etc.
          Entendida como sistema partilhado de significação, a cultura, consoante Kathryn Woodward, por meio de sistemas classificatórios, nos possibilita dar sentido ao mundo social e construir significados, que, segundo Derrida, “é produzido por meio de um processo de diferimento ou adiamento”, denominado différance, estando sujeito a uma espécie de deslizamento, de vazamento e, por isso, não é fixo. Além disso, a classificação simbólica – utilizando-se de oposições binárias: dentro/fora, nós/eles, homem/mulher etc. – cria e mantém a ordem social.
         Woodward afirma que as oposições binárias são essenciais para a produção de significado. Ademais, afirma que nas oposições binárias um dos termos é mais valorizado (norma) que o outro (desviante) e que as relações de poder são mantidas inalteradas por essas dicotomias.
          De acordo com Kathryn Woodward, as identidades são posições-de-sujeitos que assumimos e com as quais nos identificamos. Assumimos determinadas posições e nos identificamos com determinadas identidades porque somos interpelados¹ , recrutados, consciente e inconscientemente, por discursos que compõem os sistemas de representação. Diante disso, segundo Woodward, devemos enfatizar o papel dos sistemas simbólicos e do inconsciente, posto que os fatores materiais não podem explicar totalmente o investimento que os sujeitos fazem em posições de identidade.
          Woodward afirma que a psicanálise tem contribuído para subverter a ideia de sujeito (eu) unificado, enfatizando o papel dos sistemas culturais e representacionais no processo de construção da identidade e, também, enfatizando o papel dos desejos conscientes e inconscientes nos processos de identificação.
          Tomaz Tadeu da Silva, no capítulo intitulado “A produção social da identidade e da diferença”, afirma que a identidade é a referência para descrevermos e analisarmos aquilo que não somos. Afirma, igualmente, que se todos partilhássemos da mesma identidade não haveria necessidade de afirmarmos tal identidade. Isso quer dizer que só haverá identidade se houver diferença.
          Identidade e diferença são criações sociais e culturais, são interdependentes e mutuamente determinadas, conforme Tomaz Tadeu; por serem uma criação linguística, identidade e diferença só podem ser compreendidas dentro do sistema de significação nos quais adquirem sentido. E, assim como a linguagem, identidade e diferença são instáveis, indeterminadas.
          De acordo com Tomaz Tadeu, o signo, além de carregar a “presença metafísica” do referente, carrega também o traço da diferença. O signo não coincide com a coisa ou o conceito; estes não estão presentes no signo. Por isso, o signo é caracterizado pelo diferimento ou adiamente e pela diferença; a esse processo, Derrida dá o nome de différance.
          A identidade e a diferença são produzidas pelo processo de diferenciação, no qual o poder está presente, consoante Tomaz Tadeu. Nesse sentido, o poder se manifesta também nos processos de incluir/excluir, de demarcar fronteira, de classificar e de normalizar (atribuir, arbitrariamente, características positivas a uma identidade).
          As migrações, as diásporas, provocadas pelo processo de globalização, conforme Tomaz Tadeu, desestabilizaram as grandes narrativas identitárias (classe, Nação etc.) ao favorecer o processos de hibridização, sincretismo, crioulização, que promoveram novas demandas identitárias.
          Identidade e diferença dependem da representação, é por meio desta que se ligam ao sistema de poder e são inseridas no sistema linguístico e cultural, adquirindo sentido. De acordo com Tomaz Tadeu, a identidade e a diferença são enunciadas em proposições performativas, que diferentemente das descritivas, podem produzir o “fato”, podem fazer com que algo se realize.
          Tomaz Tadeu afirma que, em se tratando de identidade e diferença, “a questão do outro, da diferença não pode deixar de ser matéria de preocupação pedagógica e curricular”. Tomaz Tadeu aponta quatro possíveis estratégias pedagógicas: 1ª) estimular e cultivar bons sentimentos para com a chamada “diversidade cultural”; 2ª) aceitar a diversidade e considerar a rejeição à diferença e ao outro como distúrbios psicológicos; 3ª) apresentar uma visão superficial e distante das diferenças culturais, apresentando-as como curiosas, exóticas; 4ª) tratar a identidade e a diferença como questões de política, centrando a discussão no processo de produção e manutenção das identidades e das diferenças.
          Para Tomaz Tadeu uma pedagogia e um currículo da diferença devem: a) estimular a subversão das identidades; b) abrir o campo para estratégias – hibridismo, nomadismo, cruzamento de fronteira – que coloquem em xeque a estabilidade das identidades; c)estimular o impensado, o inexplorado, o ambíguo; d) aproximar a diferença do múltiplo e não do diverso, pois o múltiplo, segundo Tomaz Tadeu, é a ação, o processo, enquanto que o diverso é o estático, o estéril.
          No terceiro capítulo do livro Identidade e diferença, denominado “Quem precisa da identidade?”, Stuart Hall afirma que para abordar à questão que dá nome ao título do capítulo seria preciso redefinir os conceitos, alicerçando-os em outros paradigmas, posto que muitos conceitos utilizados para se abordar a questão da identidade – inclusive o próprio conceito de identidade – operam sob rasura, isto é, no intervalo entre inversão e a emergência, entre a demolição e a construção.
          Stuart Hall sugere a utilização do conceito de identificação, em substituição ao de identidade. O conceito de identificação, segundo Hall, tem dois tipos de abordagem: a “naturalista” e a “discursiva”. A naturalista acredita que “a identificação é construída a partir do reconhecimento de alguma origem comum, ou de características que são partilhadas com outros grupos ou pessoas, ou ainda a partir de um mesmo ideal”; a discursiva concebe a identificação como uma construção, como um processo nunca completado, que é condicional, moldado de acordo com o outro, é contingente, ambivalente desde o início.
          Conforme Hall, as identidades não são unificadas, são fragmentadas; não são singulares, são multiplamente construídas por meio de discursos e práticas; estão em constante processo de mudança e transformação.
          Hall afirma que a modernidade promoveu um deslocamento na concepção de sujeito (concebido até então como integral), fragmentando-o. Além disso, Hall afirma que as migrações ou diásporas desencadeadas pela globalização desestabilizaram as grandes narrativas identitárias, tais como classe e Nação, pois trouxeram o outro para dentro da fronteira, promovendo um aumenta na demanda por identidades mais flexíveis ou híbridas.
          As identidades, consoante Hall, são construídas dentro do discurso, por isso devem ser compreendidas como produções históricas e institucionais específicas; são mais produto da marcação da diferença, que caracteriza o jogo de poder, do que de uma unidade idêntica. O significado positivo de qualquer termo – e assim sua identidade – só pode ser construído por meio da relação com o outro, com aquilo que não é, com aquilo que lhe falta, com o seu exterior constitutivo, de acordo com Hall.
          Hall compreende as identidades como pontos de apego temporário, isto é, como posições-de-sujeito que as práticas discursivas constroem para nós, e que nos convocam (interpela) a assumir. Interpelação, segundo Hall, é o processo por meio do qual um sujeito é chamado a ocupar o seu lugar.
          Finalizando, Stuart Hall assevera que não é suficiente ter uma teoria de como os indivíduos são convocados a assumirem seus lugares. O importante, sobretudo, conforme Hall, é ter uma teorização de como os sujeitos são histórica e socialmente constituídos.

NOTA 1: Interpelação: termo utilizado por Louis Althusser para explicar a forma pela qual os sujeitos são recrutados para ocupar certas posições-de-sujeitos. 

Referência Bibliográfica
SILVA, Tomaz Tadeu da (org.), Stuart Hall, Kathryn Woodward. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

 



AS UTILIDADES DA HISTÓRIA

       Se eu perguntasse para você para que serve a matemática, o estudo da língua portuguesa, a geografia ou a engenharia, provavelmente você arriscaria uma resposta. Mas... se eu perguntasse qual a utilidade da História, o que você responderia?
       Infelizmente no momento em que escrevo não tenho acesso a sua resposta, a sua opinião, então, tenha um pouco de paciência e leia o que penso sobre esse assunto.
       Acredito que a História tem a capacidade de nos demonstrar que o “presente”, que temos e que vivemos, é um produto, é o resultado de pensamentos alimentados, de decisões tomadas e de ações praticadas por seres humanos como você e eu, em algum momento do “passado”.
       Portanto, se você acha, como eu, que há alguma coisa errada com “presente” e que é preciso dar uma outra feição (mais humana) ao “futuro”, então, devemos unir esforços para construirmos agora, no “presente”, um “futuro” melhor, caso queiramos deixar para a posteridade uma herança diferente da que recebemos de nossos antepassados.
       Posso dizer, para ilustrar o que penso, que vejo a Humanidade como uma motocicleta e a História como seus retrovisores.
       Comparo a Humanidade à motocicleta porque ambas precisam estar equilibradas e ser conduzidas com atenção e cautela, basta um vacilo que a queda é certa, lembrando que toda queda produz um trauma físico ou psicológico. Se tratando de Humanidade, essa queda pode ser uma Guerra ou um Holocausto.
       A História comparo aos retrovisores, pois temos o hábito de considerar que o que ficou para trás é passado, uma vez que o retrovisor é essa ferramenta, essa lente que capta e “traduz” esse passado – assim como a História – e o coloca diante de nossos olhos para que possamos nos conduzir com segurança e sabedoria, quer seja para a direita, para frente, para esquerda ou para trás.
       Essas direções, deve-se ressaltar, representam apenas as possíveis e diferente alternativas de decisões que foram, são e serão apresentadas aos condutores da Humanidade, ou seja, nós, seres humanos, durante nosso percurso.
       Além disso, acredito que a História nos capacita a percebermos e entendermos que é mais fácil derrubar um muro (de Berlim) ou pôr a baixo um prédio (WTC) do que “arranhar”, modificar uma mentalidade sedimentada e forjada por uma determinada coletividade, durante séculos. Em outras palavras, a História nos mostra que para se dissolver uma mentalidade é preciso muito mais que um século, prova disso são os resquícios que vemos ainda hoje – como os preconceitos raciais – de uma mentalidade produzida e longamente alimentada sobre as bases de uma sociedade escravista. Embora as mentalidades sejam duradouras isso não significa que sejam eternas, consequentemente, podem ser transformadas.
       Todavia, não podemos negligenciar, no que diz respeito à História, a seguinte advertência impressa em alguns retrovisores: “Cuidado! O objeto aqui refletido pode não estar no exato local onde está sendo visto através desta lente” [OBJECTS IN MIRROR ARE CLOSER THAN THEY APPEAR]. Portanto, assim como toda lente, a História pode ajudar a focalizar um determinado “objeto” ou pode distorcê-lo, isso vai depender da maneira como ela foi construída, produzida. Pois como diz, com razão, uma música do Barão Vermelho: “a lente não mente, mente quem está detrás da lente”.
       Ah!... No mais, a História também serve para nos entreter e distrair...
       Obrigado por chegar até aqui!

Einstein Augusto

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Nota de falecimento

Faleceu no final da manhã do século XX – devido insustentabilidade orgânica e esclerose pragmática, provocada pela avançada idade e pelo elevado grau de abstração e teorização das ciências do século XX – a Senhora Certeza Absoluta. Não é possível determinar com precisão a sua idade, todavia, sabe-se que ficou conhecida no Ocidente após esposar o Senhor René Descartes em meados do século XVII; consta na história que, depois da morte deste, a finada Senhora Certeza manteve diversos relacionamentos com sábios eminentes dos séculos XVIII e XIX. Seus seguidores, amigos e admiradores, ainda pesarosos, avisam que o velório acontecerá durante a tarde e ao longo da noite do século XX e que o enterro realizar-se-á na manhã do século XXI no cemitério das “Efêmeras Concepções Humanas”.



      
Brincadeiras à parte. Os séculos XVII e XVIII caracterizam-se por uma extrema valorização da razão, a exemplo disso podemos citar a frase de Hegel na qual aconselha que se tenha “fé na razão” (bela antítese!). Acreditava-se, neste momento, que a razão poderia iluminar o caminho que conduziria, infalivelmente, o homem ao conhecimento, isto é, às verdades eternas.
       Porém, nos séculos XVIII e XIX, alguns estudiosos, como Kant, já observavam que na maioria das investigações (pesquisas, estudos etc.) o investigador tinha como ponto de partida sua próprias verdades, suas conjeturas, ou seja, eram investigações apriorísticas (partindo de um axioma – geralmente falso – e utilizando-se do método hipotético-dedutivo, o investigador “demostrava por meio de argumentos irrefutáveis” a validade de sua proposição, de sua afirmação inicial), em outras palavras: o investigador tentava adequar a realidade ao seu, por assim dizer, a priori, ao seu sistema.
       Os investigadores (cientistas, estudiosos, sábios, como queira) do século XIX, ao lobrigarem os escolhos que acompanhavam o método utilizado pelos investigadores dos séculos XVII e XVIII e devido aos quais estes haviam soçobrado, procuraram utilizar métodos mais confiáveis, menos suscetíveis de falhas, a despeito disso, muitos ainda naufragaram e acabaram se afogando no mar dos próprios erros. Os investigadores que saíram incólumes ou com pequenas escoriações dos sucessivos naufrágios começaram a usar “o colete e o bote salva-vidas do a posteriori e empirismo respectivamente.
        Diante disso, a razão – até então considerada a condição sine qua non para se chegar à verdade – sofre seu primeiro knock-down: a razão sem a experiência não se sustenta.
       “Tudo que é sólido esvanece-se no ar”, esta frase de Karl Marx escrita no século XIX demonstra sua agudeza de visão, sua perspicácia analítica, posto que tal frase descreveria perfeitamente a aurora século XX. Com efeito, foi exatamente isso que se verificou no início do século XX: os sistemas desmoronam; as verdades inconcussas tornam-se bolas de sabão; a própria matéria eteriza-se. Tudo é incerto e relativo. Newton perde seu trono, Heisenberg e Einstein recusam-se a ocupá-lo pois que sabem suas contribuições serão rapidamente suplantadas.
       No final do século XX, a ciência assume sua impotência, sua incapacidade para solucionar certos problemas. Embalde, a experiência tenta ajudar a razão a conduzir o homem ao domínio das certezas, das verdades. O homem já não confia em si, sabe que seus sentidos são limitadas, suas percepções insuficientes, logo, sabe que, facilmente, pode ser enganado, iludido pelos seus próprios sentidos.
       Instala-se o caos. Todas as possibilidades são válidas, nada pode ser menosprezado. Já não se fala em certeza, fala-se em probabilidade. O erro não é mais motivo de desânimo, e sim de comemoração, pois sabe-se que eliminando caminhos “errados” aproxima-se do “certo”, que certamente conduzirá o homem a conhecimentos parciais e provisórios, à verdades relativas que incontinenti serão superadas ou complementadas.


Einstein Augusto

Obs.: Este texto inspirou-se no filme “O ponto de mutação” e nos textos “Feiticeiros e aprendizes: as ciências naturais” [HOBSBAWN] e “O iluminismo e os reis filósofos” [FORTES].

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A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL




       Os “freios” que limitavam a velocidade do poder produtivo das sociedades humanas se quebraram, segundo Eric J. Hobsbawm, na década de 1780; convencionou-se denominar esse fenômeno de Revolução Industrial. Porém, as repercussões da Revolução Industrial só se fizeram sentir fora da Inglaterra, provavelmente, depois de 1830/1840. A primeira prova disso é que referências à sociedade capitalista surgem na literatura somente a partir de 1830; a segunda, é que os movimentos sociais aos quais o proletariado, filho da Revolução Industrial, se acha ligado só se irradiam pelo continente a partir de 1840.
       Embora os efeitos da Revolução Francesa sobre a Europa sejam anteriores aos da Revolução Industrial, devemos considerar esta primeiro que aquela, por dois motivos: 1o) porque os ditos “freios” se partiram antes que a Bastilha fosse tomada; 2o) “porque sem ela não podemos entender o vulcão impessoal da história sobre a qual nasceram os homens e acontecimentos mais importantes de nosso período e a complexidade desigual de seu ritmo”.
       Alguns historiadores situam a pré-história desse processo – e não episódio – por volta do ano mil, outros situam-no nos séculos XIII, XVI e XVII, mas os números da economia não deixam dúvidas: foi somente a partir 1780 que a Inglaterra teve condições econômicas (materiais) para encarar tamanho empreendimento, que só se consolidou por volta de 1840, com a construção das ferrovias e da indústria pesada. Para Hobsbawm, a Revolução Industrial pode ser considerada, depois da invenção da agricultura e das cidades, “o mais importante acontecimento na história do mundo”.
       São vários os fatores que possibilitaram o advento do “mais importante acontecimento na história do mundo” :
       A superioridade tecnológica e intelectual não pode ser considerada como um desses fatores, pois a França, no que diz respeito às ciências naturais, sociais e políticas estava à frente da Inglaterra, embora na economia a obra de Adam Smith já estivesse sendo lida; a Alemanha possuía “instituições de treinamento técnico, que não tinham paralelo na Grã-Bretanha”. Além disso, a educação na Inglaterra era praticamente inexistente, pois “temores sociais desencorajaram a educação dos pobres”. Tecnologicamente falando, “os franceses produziam inventos mais originais”, mais complexos, porém o grande mérito dos ingleses, talvez, tenha sido saber conjugar diversas máquinas para formar uma.
       O Estado inglês tinha aceito “como os supremos objetivos da política governamental o lucro privado e o desenvolvimento econômico”, em outras palavras, estava comprometido com o capitalismo. Já nesse momento, segundo Hobsbawm, “o dinheiro não só falava como governava”, isso fez com que a “última barreira para impedir o avanço da mentalidade industrial” (levantadas pelos proprietários rurais) fosse facilmente derrubada.
       O problema agrário tinha sido revolucionariamente solucionado (Enclosure Acts) e como isso praticamente foi extinto o campesinato. Além dessa, outras medidas foram tomadas (o Decreto do Pobres e a abolição de Lei do Trigo) e a conseqüência foi a migração em massa para as cidades, onde haviam indústrias e, portanto, trabalho.
       A agricultura estava predominantemente dirigida para o mercado e tinha potencial para atender às exigência de uma sociedade industrializada: alimentar uma população urbana em rápido crescimento, aumentando a produção e a produtividade, o que foi conseguido através de pequenas melhorias técnicas; disponibilizar mão de obra para as cidades e indústria (com pequenas melhorias técnicas mais o que vimos no parágrafo anterior isso foi facilmente conseguido) “e fornecer um mecanismo para o acúmulo de capital a ser usado nos setores mais modernos da economia”.
       Um capital social estabelecia-se, tendo por base o desenvolvimento infra-estrutural (a construção de uma marinha mercante e na melhoria de estradas e vias navegáveis) e, além disso, as manufaturas já haviam se disseminado por todo interior não feudal.
       Não obstante a existência desses fatores o advento da Revolução Industrial (propriamente dita: “sistema fabril” mecanizado, produzindo em larga escala a um baixo custo) não se deu imediatamente. As primeiras indústrias a serem impulsionadas foram a da construção e a de pequenos objetos para uso doméstico, ou seja, indústrias fabricantes de mercadorias de consumo de massa. Nesse ínterim, expandiam-se as cidades inglesas e consolidava-se o mercado interno.
       Esse primeiro sucesso industrial britânico provocou uma expansão industrial européia. Países como a Bélgica e a Alemanha importaram máquinas e especialistas ingleses. Contudo, a Inglaterra possuía uma economia forte e o Estado agressivo capazes de disputar o mercado mundial e eliminar os concorrentes. Destarte, a indústria algodoeira encontra condições para se desenvolver, pois neste momento há um mercado monopolizado e há investidores interessados nos lucros excepcionais que tal indústria pode oferecer.
       A indústria algodoeira britânica (ou não) desde o início manteve uma relação íntima com as colônias ultramarinas, que produziam matéria-prima (algodão) e consumiam os produtos manufaturados. Tanto é verdade que tal indústria “se desenvolvera perto dos maiores portos coloniais: Bristol, Glasgow e, especialmente, Liverpool, o grande centro do comércio escravos”. De acordo com nosso autor, “a escravidão e o algodão marcharam juntos”, posto que a Inglaterra trocava escravos por algodão oriundo das colônias, que sempre foram os maiores compradores de manufaturados.
       O desenvolvimento da indústria algodoeira não se deu pacificamente, pois o monopólio nas colônias era estabelecido por meio de guerras e de proibições para o estabelecimento de indústria têxtil (como na Índia, que foi desindustrializada, caracterizando uma inversão história: o Oriente importando mais que exportando) ou de tratados desvantajosos para Metrópoles (como Portugal e Espanha) dependentes economicamente da Grã-Bretanha.
       A indústria algodoeira apresentava-se como um investimento extremamente atraente e promissor (lucros estimados em centenas e milhares por cento), visto que seus produto possuíam um amplo mercado mundial praticamente monopolizado e contavam com matéria-prima e mão de obra baratas.
       A palavra “revolução” é comumente usada como sinônimo de revolta, sublevação e, às vezes, para designar uma “transformação radical e, por via de regra, violenta, de uma estrutura política, econômica e social” (Dicionário Aurélio). Todavia, Hobsbawm considera que o conceito de “revolução” só será válido, ou seja, operatório, quando o fenômeno/processo ao qual se referir tenha afetado ampla, profunda e terminantemente a sociedade na qual está inserida.
       Tendo esta consideração em mente, Hobsbawm assevera que o aparecimento da indústria algodoeira pode ser considerado a verdadeira Revolução Industrial, pois nenhuma outra indústria empregou tanta mão de obra (um milhão e meio de pessoas empregadas diretamente), nem afetou tanto a economia a sua volta, tampouco fomentou o comércio exterior como a indústria algodoeira.
       Porém, a expansão da indústria algodoeira e da economia industrial não foi tranqüila. A primeira crise econômica provocou a “miséria e o descontentamento, ingredientes da revolução social”. Das revoluções de 1848 participaram – além dos trabalhadores pobres – pequenos comerciantes e elementos da pequena burguesia, todos “vítimas da revolução industrial e de suas ramificações”.
       Essas “convulsões” sociais foram consideradas “sintomas” de um “organismo doente” e desde que não provocassem a “morte” deste “organismo” – ou seja, a derrubada da ordem social – eram irrelevantes. No entanto, essas “convulsões” demonstraram “haver certas falhas inerentes ao processo econômico que ameaçavam seu (do capitalista) objetivo fundamental: o lucro”. “As três falhas mais óbvias eram o ciclo comercial de boom e depressão, a tendência de diminuição da taxa de lucro e a escassez de oportunidade de investimento lucrativo”.
       Para essas três falhas foram compreendidas e solucionadas de diferentes maneiras pelos capitalistas. As crises de boom e depressão foram interpretadas ou como “fenômenos periódicos regulares” ou como problemas extrínsecos ao processo, portanto a solução não foi buscada (e mesmo que fosse não seria encontrada, posto que são inerentes ao capitalismo). A diminuição das taxas de lucro teve como principal solução a compressão dos salários a um “limite fisiológico”, em outras palavras, ao mínimo necessário para a manutenção da vida do trabalhador. E para o problema de escassez de oportunidade de investimento lucrativo a solução encontrada foi a “construção de uma indústria básica de bens de capital”.
       Devido a disponibilidade de recursos, a indústria de bens de capital – sobretudo mineração e metalurgia – desenvolveu-se rapidamente, criando condições para o surgimento da maior expressão de modernidade para o leigo: a ferrovia (síntese da era: poder e velocidade). A partir do seu aparecimento a ferrovia absorve o capital acumulado e, até então, sem destino certo, entretanto os lucros obtidos não são os esperados.
       Como podemos observar a Revolução Industrial é, por assim dizer, um processo insofreável. Também podemos observar (empírica e historicamente) que, desde o seu advento até os dias atuais, por onde essa “locomotica sem freios” passou, passa e passará sempre deixou, deixa e deixará um rastro de progresso e de destruição, de riqueza e de miséria, de vida e de morte.

Einstein Augusto

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Bibliografia:
HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções. São Paulo, SP: Par e Terra, 1997, 10a edição.


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LUTERO: FÉ OU FÚRIA, TERRA OU CÉU


       Sempre que tentarmos responder a questões que envolvam as relações do homem com aspectos imateriais, sejam eles psicológicos ou metafísicos, estarem conjeturando ou, na melhor das hipóteses, apresentando aspectos verossimilhantes, porquanto não podendo penetrar nos cérebros humanos e ponderar os seus produtos jamais teremos material confiável para asseverarmos o que quer que seja...
       Antes de tentarmos dar uma resposta – apoiada no texto de Daniel Rops e no filme “Lutero” – à pergunta “qual era o drama de Lutero ?”, outra observação deve ser feita: diz respeito ao que Marc Bloch chama de “superstição da causa única”, ou seja, o fato de acreditarmos que uma única causa determine um acontecimento histórico ou, no que diz respeito ao nosso objeto de estudo: Lutero, que um único fator tenha sido a causa do “drama” vivido pelo o mesmo. Por isso consideramos apropriado falarmos não de drama, no singular, mas de dramas, no plural, a não ser que queiramos dizer que Lutero, assim como outros eminentes teólogos, tenha vivido o drama ou dilema maniqueísta do material versus o imaterial, em outras palavras, da carne versus o espírito etc.
       Martinho Lutero foi um homem extremamente inteligente, todavia desequilibrado psicológica e emocionalmente. Foi a síntese da contradição: um homem irascível que pretendia ser pacífico (“bem-aventurados os brandos, pois possuirão a terra”, Mateus 5 : 5); um homem sobranceiro que queria ser humilde e servir (“quem quiser tornar grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo”, Mateus 20 : 26-27); um homem vingativo que almejava ser indulgente (“se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados”, Mateus 6 : 14). Em suma, Lutero foi um homem da terra que se esforçou, ou melhor, que lutou ferrenhamente contra sua tendências, suas paixões, seus “demônios” para vivenciar uma doutrina, por assim dizer, do céu.
       Para Arthur Schopenhauer, “a morte é propriamente o gênio inspirador, ou a musa da filosofia”, para ele, “sem a morte, seria mesmo difícil que se tivesse filosofado”. Lutero ainda na juventude teve contato com a morte: um amigo morto, uma doença e um ferimento graves e ainda um susto tão grande que se considerou morto ao ver um raio cair ao seu lado. Tudo isso fez com que Lutero mudasse radicalmente a sua vida, deixou para trás o direito e, a partir de então, fez-se monge e dedicou-se exclusivamente à teologia ou a Deus, como queira.
       Formado em filosofia e letras, pelo método escolástico, e agora teologia, logo começou a destacar-se e a contestar certas práticas que considerava ímpias, como a simonia, ou supersticiosas, como o culto à relíquias. A princípio sua contestações e posições eram ignoradas por seus superiores, pois as consideravam inócuas. Todavia, depois de afixada as teses e à medida que adquiria autoridade e popularidade, Lutero começou a ser visto pela Igreja com outros olhos: primeiramente os olhos da preocupação e depois os do ódio.
       Lutero não tinha o propósito de romper com a Igreja, queria simplesmente que ela se purificasse. Um dos seus dramas era considerar-se o detentor do verdadeiro Evangelho, “não dos homens, mas do céu” e, às vezes, viver a incerteza de ser ou não ímpio, pecador ao expor o que considerava os erros da Igreja. Arrostou os prepostos da Igreja, enfrentou diversos duelou de idéias e palavras, sai vencido de alguns e vencedor de muitos. Não se submeteu, não renegou suas teses, assumiu todos as suas obras. Por fim foi excomungado e então houve a cisão.
       A Reforma atendeu a muitos interesses principalmente seculares, posto que serviu de fundamento teórico para a legitimar a autoridade dos príncipes alemães que “foi instituída por Deus e só Ele pode destruir”. Além disso a Reforma promoveu unidade nacional e criou condições materiais para a consecução da tão anelada autonomia política em relação à Igreja. Ainda com relação a aspectos seculares, não podemos deixar de mencionar a posição assumida por Lutero acerca do massacre do camponeses. Ao contrário do que se espera de um cristão verdadeiro: a contemporização, Lutero foi inexorável, para não dizer cruel, ao declarar: “Exterminai, decapitai, que todo aquele que puder trate de agir! Vivemos em tempos tão extraordinários que um príncipe pode merecer mais facilmente o céu derramando sangue do que outros rezando!”.
       Um outro drama de Lutero: o sentimento de impotência diante das suas más inclinações – a concupiscência (que o casamento arrefeceu) e a cólera – talvez possa nos ajudar a entender por que ele negava o livre-arbítrio. Para Lutero o homem já nasce predestinado à salvação ou à perdição eterna, nada que ele faça pode mudar essa situação, a própria fé é um apanágio dos eleitos.
       Lutero tinha diante de si mais um drama: a constatação de que o que criticara no catolicismo estava sendo praticado dentro da sua própria doutrina; muito do que inicialmente acreditava e pregava teve de ser revisto, como a questão do livre exame (uma doutrina precisa de unidade e o livre exame produz exatamente o contrário) e da hierarquização (indispensável para a ordem e o desenvolvimento da Igreja nascente). Com efeito, a obra de Lutero era tão contraditória como o próprio. Apesar de sua principal crítica à Igreja estar relacionada à falsa segurança criada pela venda de indulgências, o principal ponto de sua doutrina produz a mesma falsa segurança, pois basta ter fé para se considerar salvo.
       Talvez o drama ou dilema de Lutero fosse o mesmo que afligiu muitos homens ao longo da história e ainda aflige o homem moderno: de um lado, a necessidade e a vontade de acreditar em algo capaz de tornar a vida menos áspera, suportável; de outro, a dúvida sistemática, o ceticismo, em uma palavra, o nihilismo...

Einstein Augusto da Silva


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FEIRAS x FEIRAS


       Ao tentarmos comparar as feiras dos séculos XV-XVIII, que Fernand Braudel nos apresenta, com as atuais, temos a sensação de que aquelas são “ancestrais” destas, metaforicamente falando. Apesar das aparentes mudanças, pudemos perceber uma impressionante permanência.
      Para suprir as diversas necessidades do homem (alimento, vestimenta, ferramenta etc.), surgem as primeiras feiras e com elas o desejo do lucro. As feiras atuais ainda possuem esse caráter utilitário e o desejo do lucro (talvez mais ardente), porém as necessidades a serem supridas e as prioridades dos homens, atualmente, são bem diferentes das daquela época.
      Antes aconteciam trocas, agora acontecem vendas, isto não caracteriza uma mudança significativa, pois as vendas nada mais são do que trocas de mercadorias por moedas, que por sua vez serão trocadas por outras de mercadorias, em um ciclo perpétuo.
       As feiras atuais mantiveram a sua ocorrência em forma de circuito (as feiras dos séculos XV-XVIII aconteciam mensal, semestral ou anualmente, as atuais, semanal ou quinzenalmente) que é uma característica remanescente. É interessante notar que embora existam, atualmente, mercados permanentes especializados em comercializar os mais diversos produtos tanto do campo quanto da cidade, as feiras possuem uma clientela fiel.
       A amplitude das feiras é uma característica na qual vislumbramos mudança: se algumas daquelas feiras dos séculos XV-XVIII chegavam a “mobilizar todo o Ocidente”, as feiras atuais são muito mais circunscritas, atraindo, quando muito, a população de uma cidade, de uma região (é preciso ressaltar que estamos tratando de feiras, cuja finalidade seja atender as necessidades primordiais do homem).
       Diferentemente das feiras dos séculos XV-XVIII, as feiras atuais não contam com uma justiça privilegiada. Muito pelo contrário, estão sujeitas à tributações muitas vezes mais pesadas do que a que são submetidos outros segmentos do comércio. Em compensação os feirantes se associaram (em uma espécie de carterização), a fim de restringir o acesso, evitando uma grande concorrência, isto é, uma grande oferta, o que inevitavelmente faria com que os preços baixassem.
       Acreditamos que o desperdício possui um caráter relativamente recente na história das feiras. Devido a grande fartura de produtos alimentícios (pelo menos aqui no Brasil), o desperdício é uma constante nas atuais feiras, isto certamente causaria arrepios no homem dos séculos XV-XVIII, o qual teve que aprender a conviver com o fantasma da escassez, da fome, da seca e consequentemente da morte.
       A despeito de todo conhecimento relativo à higiene, pudemos constatar que os cuidados com esta nas atuais feiras devem estar bem próximas dos das feiras dos séculos XV-XVIII. Ou seja, a higiene praticamente inexiste. Carnes mal acondicionadas, sendo cortadas em mesas, cuja cor depende da quantidade de sangue acumulado. Lixo e moscas por todas as partes. Fezes de galinhas e poeira servem de tapete aos transeuntes.
       A variedade de produtos é uma outra herança. Esta talvez seja a principal causa de sucesso das feiras, tanto das dos séculos XV-XVIII como das atuais, antigamente por ser esta variedade imprescindível à sobrevivência, atualmente pela comodidade e praticidade de suprirmos várias necessidades de uma só vez.
       Um detalhe. As ditas especiarias (pimenta-do-reino, nosmoscada, gengibre etc.) tão cobiçadas antigamente, ainda hoje recebe uma atenção especial por parte dos consumidores. Tendo inclusive um preço relativamente elevado, se comparado a outros produtos.
       O aspecto festivo das feiras também sobreviveram ao tempo. A incessante vontade e necessidade de vender (mais do que o vizinho) faz com que o sorriso esteja sempre estampado em quase todas faces, o diálogo constante entre vendedores e compradores faz com que o som ambiente seja elevado, o frenético movimento dá a sensação de uma dança diferente... é a dança da sobrevivência para o vendedor e a dança da economia para o comprador.
       Isto é uma festa, ou melhor, uma feira!

Einstein Augusto


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PROCURA-SE UM MÉTODO

          Depois de transitar entre o século XVI e o XXI... depois de perguntar incessantemente “o que é método e qual sua utilidade?”... depois de aprender com Newton e desaprender com Einstein... depois de “beber” Kant, ter que “engolir” Marx... depois de ouvir conselho até de Dom Quixote (1) ...
          Depois de tudo isso, ainda não é possível optarmos definitivamente por um método já existente, nem concebermos o nosso próprio método, a fim de executarmos uma modalidade de trabalho (ainda sem tema) denominada, por Ciro Flamarion, de “História Social”. Para sermos mais claros, procuramos pelo método apropriado para executarmos um trabalho de “História das Mentalidades”. Todavia, a experiência nos diz que se pegarmos o caminho errado, certamente não chegaremos onde pretendíamos. Portanto, se optarmos por um método inadequado para executarmos nosso trabalho, igualmente, não atingiremos nosso objetivo: fazer uma “História das Mentalidades”.
          Nas Ciências Naturais, tudo parece ser mais objetivo, preciso, inexorável: escolhe-se o objeto/fenômeno; decompõe-se o mesmo, em suas partes mínimas; compreende-se e explica-se o “funcionamento” de cada uma dessas partes; recompõe-se o objeto/fenômeno e observa-se, caso o fenômeno se repita regularmente sob as mesmas condições, estabelecem-se leis e pronto (isso se passa assim somente para nós leigos que tudo reduzimos).
          Nas Ciências Humanas, mais especificamente na História, as coisas são um “pouco” diferente: o objeto/fenômeno se confunde com o sujeito, é parte dele; decompor o objeto/fenômeno das Ciência Humanas (da História) é distorcer a realidade, posto que a realidade é irredutível; compreender e explicar um fenômeno/objeto imponderável – e no caso da História, passado – é inviável pois nossa idiossincrasia nos turvam o raciocínio e observar as repetições para estabelecer leis é impossível, visto que nas Ciência Humanas os fenômenos são tidos como singulares, únicos.
          O método, segundo Descartes, evita que tomemos por verdadeiro algo que não o é. Todavia, a ciência atualmente não postula mais a existência de uma verdade absoluta; mas sim de sua probabilidade.
          Na História já faz bastante tempo que os historiadores mais escrupulosos ou menos pedantes concebem a verdade como uma probabilidade(2) . Embora a História não mais persiga a verdade, ainda assim é necessário um método para lidar com os objetos/fenômenos da História.
          Alguns historiadores – Henri Sée e Henri Pirenne – defendem a idéia de que o método – especificamente o comparativo – “seria o instrumento capaz de transformar a História em uma ciência, ao permitir a passagem da descrição para a explicação” [apud Ciro Flamarion e Héctor Brignoli, in: Os métodos da História, 2002].
          Ciro Flamarion e Héctor Brignoli nos chama a atenção para um outro ponto que deve ser observado: a relação metodologia–dependência cultural; traduzindo: os autores nos advertem que não podemos simplesmente adotar um mesmo método – elaborado e desenvolvido em função de determinadas realidades históricas – para estudarmos fenômenos distintos cultural, temporal e espacialmente. É preciso, antes, fazer adaptações criteriosas para que possamos aplicar satisfatoriamente um método, por assim dizer, exótico à realidade a ser estudada(3).
          Diante de tantas dificuldades e de tantas possibilidades metodológicas, a proposta da fenomenologia - na acepção concebida por J. H. Lambert e desenvolvida por Edmund Husserl – torna-se extremamente atraente, principalmente pelo fato de não ter a pretensão de compreender, tampouco de explicar, apenas de apreender o fenômeno, por outras palavras, a fenomenologia propõe uma descrição pura do “fenômeno tal qual este se apresenta à nossa experiência”, superando assim as dicotomias sujeito-objeto e realismo-idealismo.

Einstein Augusto

Notas
(1)“...devendo e havendo ser os historiadores pontuais, verdadeiros e nada apaixonados, sem que o interesse, nem o medo, nem o rancor, nem a afeição os façam torcer o caminho da verdade, cuja mãe é a história, êmula do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do porvir...” [Dom Quixote De La Mancha, Miguel de Cervantes, Ediouro, s/d.]
(2)“Toda certeza que não encontre uma demonstração matemática é uma simples probabilidade. A certeza histórica é dessa espécie...” [Os Pensadores – Voltaire]
(3)A respeito disso Voltaire afirma: “O importante, pois, é saber que o método conveniente à história de seu país não é próprio para descrever as descobertas do Novo Mundo; que não deve escrever sobre uma aldeia como se escreve sobre um império, que não se pode escreve a história privada de um príncipe como se fosse a da França e a da Inglaterra”.

Bibliografia

VOLTAIRE, Coleção Os Pensadores, São Paulo, Editora Abril, 1978.
CARDOSO, Ciro Flamarion S. e BRIGNOLI, Héctor Pérez. Os métodos da História. 6a. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2002.
CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote De La Mancha. Rio de Janeiro: Ediouro S.A., s/d.
DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martin Claret, 2003.


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A POLISSEMIA DA IDEOLOGIA





        Antes de mais nada, este trabalho, para ser claro e coerente, necessita de algumas definições conceituais precisas.
        Modernamente, sói definir ideologia como um sistema de crenças ou de atitudes de um grupo social, que deve ser avaliado pelos efeitos práticos ou interesses sociais que procuram promover, através de distorções da realidade.
        Todavia, há muito tempo se tenta identificar as ideologias ou linhas imaginárias que limitam as ações da maioria dos homens. Em 1620, na sua obra Novum Organum, Francis Bacon já havia identificado e criticava

“ídolos e noções falsas que ora ocupam o intelecto humano e nele se acham implantados não somente o obstruem, a ponto de ser difícil o acesso à verdade, como, mesmo depois de seu pórtico logrado e descerrado, ressurgirão como obstáculo à própria instauração das ciências, a não ser que os homens, já precavidos contra eles, se cuidem o mais que possam.”



        Depois de Bacon, outros pensadores, principalmente os iluministas do século XVIII, se dedicaram ao estudo “desses sistemas de crenças capazes de circunscrever nações e eras inteiras”. Filósofos como Descartes acreditavam em “tradições ilusórias destiladas e promovidas por déspotas e seus aliados, a casta dos padres, a fim de manter as massas na sonolência da ignorância”.
        A primeira vez que a palavra ideologia foi usada, por Destutt De Tracy, no tempo da Revolução Francesa, ela possuía um sentido bastante diferente dos atuais. Para De Tracy, idéologie seria o método, universalmente aplicável, utilizado para se atingir o conhecimento. A ideologia, ou ciência das idéias, seria o fundamento para todas as demais ciências, devendo investigar e descrever a forma pela qual nossos pensamentos se constituem.
        Foi com Napoleão que a palavra ideologia começou a receber uma de suas atuais conotações, isto é, a de antítese ou inversão do real. Porém, foi com Marx e Engels, no século XIX, que a palavra ideologia começou a ser empregada para designar os “sistemas de crenças de grupos sociais, freqüentemente implícito, que limitam os horizontes conceituais e que influenciam não apenas as respostas que os homens encontram mas até mesmo as perguntas que fazem”.
        Porém, se engana quem pensa que há consenso entre os continuadores de Marx – os chamados marxistas – com relação ao conceito de ideologia. Pode-se, dentro da corrente marxista, distinguir, pelo menos, três diferentes interpretações acerca da conceituação de ideologia: a) ideologia como falsa consciência; b) ideologia como reflexo da infra-estrutura; c) ideologia como parte orgânica e necessária de todas as sociedades.
        Baseados na Ideologia Alemã de Karl Marx, alguns autores, entre os quais Lukács, concebem ideologia como uma reflexão deformada e invertida da realidade; uma falsa consciência em oposição à verdadeira consciência, ou seja, o conhecimento, cujo portador seria o proletariado.
        A interpretação da ideologia como reflexo da infra-estrutura pode ser encontrada nas obras de Bernstein; segundo ele, a ideologia segue obedientemente aos movimentos da base econômica. Segundo esta interpretação, a ideologia é concebida como absolutamente destituída de força.
        A terceira interpretação de ideologia dentro da corrente marxista, da qual comungam Gramsci e Althusser, não considera a ideologia como uma falsa consciência nem com um mero reflexo de outra coisa. Tanto Gramsci quanto Althusser concebem a ideologia como algo mais que um sistema de idéias; para eles, a ideologia tem, por assim dizer, uma existência material dentro das instituições como a igreja, escola, família e o partido político. Não se trata de formulações conscientes, pelo contrário, são inconscientes, em outras palavras, orgânicas. Determinam tipos de comportamento e hábitos, organiza os homens e reproduz relações sociais, ou seja, perpetua o status quo.
        Consoante Marx e Engels,

“a produção de idéias, de representações e da consciência está, no princípio, diretamente vinculada à atividade material dos homens [...]. São os homens os produtores de suas representações, de suas idéias, etc., mas os homens reais e atuantes, tal como são condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e das relações a eles correspondentes, até chegar às suas mais amplas formações. [...] E se, em toda ideologia, a humanidade e suas relações aparecem de ponta-cabeça, como ocorre em uma câmara escura, tal fenômeno resulta de seu processo histórico de vida [...]”.



        Em outras palavras, segundo Nildo Viana, “ a ideologia é uma forma cultural complexa. Ela surge com a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual [...]”. Ainda conforme Nildo Viana, “a ideologia é um pensamento sistematizado, organizado, que inverte a realidade, ou seja, que expressa o real mas realiza sua deformação”. Logo, “toda ideologia possui momentos de verdade ao lado de momentos de falsidade”.
        Os ideólogos, intimamente ligados a classe dominante, surgem com a divisão do trabalho em intelectual e manual e têm como função principal desenvolver ideologias que dissimulem a existência da dominação tanto material quanto espiritual (no sentido filosófico da palavra) de uma minoria privilegiada. Marx e Engels, em “A Ideologia Alemã”, asseveram que

“as idéias da classe dominante são, em todas as épocas, as idéias dominantes; ou seja, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. [...]. Os indivíduos que formam a classe dominante possuem, entre outras coisas, também uma consciência e, por conseguinte, pensam; uma vez que dominam como classe e determinam todo o âmbito de um tempo histórico, é evidente que o façam em toda sua amplitude e, como conseqüência, também dominem como pensadores, como produtores de idéias, que controlem a produção e distribuição das idéias de sua época, e que suas idéias sejam, por conseguinte, as idéias dominantes de um tempo”.



        Só assim podemos compreender o caráter conservador das ideologias e entender suas principais funções que são: naturalizar, universalizar e legitimar as relações sociais existentes.
        Para atingir seus objetivos, os ideólogos (representantes intelectuais da classe dominantes) utilizam-se de veículos de difusão eficazes e de grande alcance nos quais expõem de maneira implícita ou não as ideologias da classe dominante. Entre esses veículos destacaremos a imprensa e o livro didático.


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A APROPRIAÇÃO DA HISTÓRIA DO COTIDIANO PELA HISTÓRIA NOVA

Imagem:

       De pé, no centro de uma praça extremamente movimentada, há uma mulher sozinha, vestida com uma burca negra, roupa típica de mulheres islâmicas. Durante meses esta mulher permanece naquele mesmo lugar.
       Alguns homens que passam apressados a olham com estranhamento, outros nem a percebe, outros ainda, apesar daquela estranha vestimenta, se sentem atraídos pelos encantos secretos daquela mulher. Estes homens parecem enxergar a linda mulher que se esconde por trás daquela roupa, que ela não escolheu.
       Um certo dia, alguns homens, ao descobrirem que ela se vestia com aquela roupa por não possuir outras, resolveram presenteá-la com algumas peças novas. Algumas dessas roupas eram bem sensuais: com decotes acentuados, tecidos transparentes, curtas etc.
       No dia seguinte, na mesma praça, no mesmo lugar, a mesma mulher. Porém, vestida com roupas diferentes, extremamente atraentes. O resultado foi uma incrível aglomeração de pessoas, tanto homens quanto mulheres, deslumbrados, paravam para admirar tamanha beleza.


Interpretando:

       A mulher simboliza a História.
      A burca representa uma concepção arcaica da História, que cheira a mofo, segundo Marc Block.
       As roupas sensuais retratam as contribuições da História nova.
       A praça representa as escolas, as academias, em suma, todas as instituições.
       Os homens que olham rapidamente e os que passam despercebidos reproduzem a maioria dos componentes da sociedade.
      Os homens que se sentiram atraídos e os que deram as roupas são os historiadores eminentes, que conseguiram superar as dificuldades e limitações impostas.
      Ao se apropriar da história do cotidiano, a História Nova aproximou a história, propriamente dita, de seus sujeitos/consumidores.
      Os heróis inatingíveis saíram de cena, em seus lugares entraram pessoas comuns como eu ou você, que trabalham na lavoura ou na indústria, que sorriem e não têm dentes, que amam e odeiam (mais odeiam que amam, pois se amassem mais o mundo seria diferente), que dormem em camas duras, que comem carne crua, que furtam, que têm sede de água, de dinheiro, de poder, que casam, brigam, traem, separam, novamente casam, etc.
      Então, tudo o que diz respeito à vida dessas pessoas começou a despertar interesse, pois tudo o que essas pessoas fazem nós também fazemos, às vezes igual, às vezes diferente, o interessante é justamente isso .
       A História Nova – pura e simplesmente – retirou as teias que davam um aspecto sombrio à Historia. A História Nova abriu as janelas e as portas da imensa mansão da História para que quem estivesse do lado de fora, mesmo que de passagem, pudesse contemplá-la e para que quem estivesse do lado de dentro pudesse respirar o ar da liberdade.

Einstein Augusto

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BARROCO & BARROCO



      As artes – arquitetura, literatura, pintura, música – manifestam-se nos vários períodos históricos, adjetivando-os. O século do Absolutismo (do Exagero, uma vez que ser absoluto é exagero), da Contra-Reforma - o XVII - produziu o Barroco e simultaneamente foi caracterizado por ele.
      Um século antes a Europa estava sendo convulsionada por conflitos sociais e religiosos, entre eles a Reforma Protestante. Toda essa conturbação material (sublevações, morte - ponderáveis), toda essa guerra simbólica (Reforma, Contra-Reforma - imponderáveis) influíram enormemente na cultura seiscentista.
      Para combater o fogo simbólico da Reforma, a Igreja Católica, muitas vezes, lança mão do fogo material, queimando obras consideradas hereges ou indignas de existir; às vezes, ameaçando os autores com o mesmo destino de suas obras: o fogo.
      O espírito altivo do Absolutismo, com sua tendência pelo colossal, serviu de tema e inspiração para que as artes (na acepção que demos na primeira linha) se manifestassem em expressões que evidenciavam o poder através da monumentalidade de Palácios e Igrejas.
      O homem renascentista viveu mais intensamente o grande dilema: antropocentrismo X teocentrismo. Expliquemo-nos: o homem seiscentista desejava manter o status de centro e ao mesmo tempo se sentia atraído (talvez atraído por esta promessa do Cristo: “aquele que me reconhecer diante dos homens, eu o reconhecerei diante do Pai Celestial”. Lucas 12:08) pelo movimento de Contra- Reforma conduzido pela Igreja.
      Ao resultado desse dilema – que pode ser expresso de outras formas: razão X fé, espiritualismo X materialismo – dá-se o nome de Barroco, “pérola deformada” (a arte do exagero, dos detalhes, das curvas, das dobras e das cores), cuja origem é bastante controversa.
      O Barroco é a síntese da tentativa de conciliar céu e terra, pureza e pecado, alegria e tristeza. O Barroco teve sua gênese nas artes plásticas, mas, rapidamente rompeu as tênues fronteiras destas, invadindo e conquistando outras formas de expressão. Ao sabermos que, na Europa, as características do Barroco variaram de uma região para outra, constamos que mesmo idéias vigorosas sofrem mutações, no tempo e no espaço.
      A arte Barroca tem o condão de provocar a fascinação e as dúvidas, de maravilhar o espectador com seus excessos e irregularidades (assimetria), com a escolha de cores fortes e contrastantes, com sua vocação antitética caracterizada pela ênfase nos efeitos de sombra e luz, com sua tendência ao pessimismo. O Barroco utilizou com extrema liberdade soluções artísticas pregressas: ordens, colunas, capitéis, folhas de acanto, mísulas, arquitraves, arcos, etc. E mais: o Barroco obrigou o homem a se situar na Natureza, a reconhecer a sua transitoriedade, a sua vulnerabilidade diante do tempo.
      O aparecimento de diversas escolas arquitetônicas se deveu a variedade de interpretações do Barroco, nesse período a Arquitetura é a arte suprema, a pintura e a escultura eram apenas acessórios, complementos. A escola Ibérica se sobressaiu, estabeleceu o arcabouço, deu as coordenadas do estilo, que atravessando o Atlântico veio manifestar-se nas colônias portuguesas e espanholas.
      No Brasil, o Barroco atingiu o seu zênite no século XVIII, sob a forma de literatura. Dois fatos marcaram o surto Barroco no Brasil: a descoberta do ouro brasileiro (século XVII) e o terremoto que destruiu Lisboa em 1755. Em suas manifestações mais exuberantes, o Barroco recebeu o nome de Rococó (barroco francês) a arte da ostentação, da nobreza, da extravagância, de Luís XV, do palácio de Versailles.
      Vivendo numa angústia constante, num perpétuo dilema o artista barroco – quem sabe – cansado de optar por um ou outro tema (sagrado ou profano, etc.), na hora de eleger o material a ser trabalhado não se conteve: escolheu “todos”, rompendo com convenções que, até então, separavam as várias categorias e gêneros artísticos.
      Os primeiros trabalhos barrocos foram executados no Brasil por monges beneditinos, franciscanos e carmelitas. Porém, o berço da arte barroca genuinamente brasileira viria a ser Minas Gerais. Isso se deveu ao poder aquisitivo proporcionado pelo ouro; a uma relativa flexibilidade social, reunindo, numa mesma atividade, senhores e escravos; além da efervescência de sensibilidade artística.
      Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e Manoel da Costa Ataíde destacaram-se na produção do barroco, associando-se na criação de conjuntos de esculturas e pinturas. O barroco brasileiro tem ascendência direta do barroco português, pois está claramente vinculado à arte de Braga e do Porto. Por isso, não pode considerado como uma arte bastarda ou degenerada.
      No Estado de Goiás, o Barroco deixou suas digitais, suas pegadas nos “vilas” e cidades mineradoras, sob a forma de Igrejas (do Carmo, em Pirenópolis), Palácios (Conde dos Arcos, em Goiás) e monumentos (o chafariz, em Goiás) ainda conservadas nestas e noutras localidades.
      Devido à decadência pós-ouro (séculos XVIII e XIX) por que passou a maioria das regiões mineradoras, muitos indícios da presença do Barroco no Estado de Goiás desapareceram ou foram reduzidos a ruínas. Alguns dos indícios que resistiram sofreram intervenções indevidas – às vezes, irresponsáveis – o que fez com que perdessem sua identidade barroca.
      As fachadas das construções, do século XVIII, das cidades de Vila Boa e Meia-Ponte – atuais Goiás e Pirenópolis – destacam-se por uma característica oposta ao barroco: a sobriedade. De tanto se repetir, essa sobriedade acabou por constituir-se em um estilo: o estilo colonial brasileiro.
      Uma das causas dessa aparente contradição (sobriedade / barroco) pode ser a inexistência ou indisponibilidade, na região, de “recursos tecnológicos”, necessários para as construções de grande porte. O que, de uma perspectiva, apresenta-se como uma contradição; de outra, pode ser interpretada como a adaptação de uma idéia às condições materiais para a sua manifestação.
      Os altares das Igrejas goianas, nascidas sob a égide do Barroco, foram construídos em madeira, elemento que permitiu aos artistas extravasarem todo um oceano de inspirações e sentimentos represados por limitações materiais. Nos altares encontram-se as expressões mais fiéis ao Barroco: talhes que eterizam a matéria, isto é, que transformam o rígido em fluido. Trabalhos meticulosos que demonstram o engenho, a capacidade criadora dos artistas brasileiros (a maioria desconhecidos).
      A estatuária goiana é uma outra área na qual o Barroco conseguiu se desenvolver com todo o seu vigor. Nessas obras pode-se observar claramente alguns traços característicos do Barroco: o excesso (sempre ele) de dobras; a exuberância de cores (hoje pálidas); a repetição dos temas (“as composições figurativas, durante a Contra-Reforma, cumprem a função específica de contar sempre a mesma história”; a representação de corpos anatomicamente perfeitos: herança renascentista; a invariabilidade das fisionomias, derivadas de um tipo ideal: o anjo; a indiferenciação etária das figurações humanas, ou seja, adultos e crianças semelhantemente representados; a simbologia pagã implícita (talvez, outra herança renascentista). Na atualidade, a estatuaria barroca goiana é reconhecida como uma das mais importantes e ricas do Brasil. Esse prestígio se deve, em grande parte, ao artista: Veiga Valle.
      José Joaquim da Veiga Valle foi o mais importante artista (pintor e escultor) do barroco goiano. Nascido (1809) na cidade de Meia-Ponte, desconhecia o mundo das letras; em compensação, desde a infância viveu em um ambiente artístico e religioso que propiciou o desenvolvimento de suas aptidões.
      Como todo artista barroco, Veiga Valle viveu o dilema céu x terra. Em 1833, fez-se membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento (em busca do céu), logo depois, 1837, elegeu-se vereador (em busca da terra). Incumbido, pelo presidente da Província, de adornar, inclusive com ouro, os altares da igreja matriz da capital, Veiga Valle mudou-se em 1841 para Vila Boa. No mesmo ano casa-se com Joaquina Porfíria Jardim – filha do presidente da província: José Rodrigues Jardim – com quem, ao longo da vida conjugal, teve oito filhos.
      Veiga Valle especializou-se na estatuária sacra. Representou em cedro – madeira macia e durável – uma grande quantidade de santos. Destes destacam-se: as Madonas (Nossa Senhora), Meninos Jesus, Santo Antônio e São José de Botas (padroeiro dos bandeirantes e desbravadores). Acredita-se que tenha tido um único ajudante/aprendiz: o próprio filho Henrique.
      Veiga Valle teve uma vida artística longa e ativa, produziu por 53 anos (1820-1873). Suas obras são reconhecidas pela riqueza de detalhes, pela proporcionalidade das dimensões e pela impressão de movimento que transmite. Além disso, há uma peculiaridade: suas esculturas eram feitas em partes separadas e depois montadas.
      A obra de Veiga Valle só começou a ser reconhecida (1940), como uma expressão fiel do Barroco, muito depois de sua morte (1874), fato comum e universal, quando se trata da filha mais ingrata: a arte.
      Talvez devido a sua localização, distante dos centros culturalmente ativos, o Barroco em Goiás teve uma existência exuberante, embora efêmera. Nascendo, florescendo e fenecendo durante o período aurífero.
      Em suma, o Barroco goiano pode ser considerado, ele mesmo, uma antítese, posto que é o resultado da conciliação entre opostos, isto é, entre o que se deseja executar e o que é, materialmente, executável, em outras palavras, o Barroco goiano é produto do clássico dilema: ideal x real.

Einstein Augusto


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ESPECIFICIDADE DA NARRATIVA DO HOLOCAUSTO



      Considerando que ao introduzir em História “o modelo de uma ‘explicação racional’ baseado nas ciências matemático-experimentais [...] apresentado como universalmente válido”, criou-se uma “lacuna” na especificidade da história, posto que “esse modo de explicação e sua racionalidade dependem decisivamente da argumentação com base em leis gerais”, que, como é sabido, não podem ser estabelecidas em História.
      Todavia, com a instituição da narrativa como “modo de explicação” específico da história o que era um “vício”, um defeito – a “lacuna” advinda da impossibilidade de se estabelecer leis – metamorfoseia-se em “virtude”, em qualidade. Em história, narrar é sinônimo de explicar racionalmente. Narrar, para Jörn Rüsen, é atribuir sentido, o qual “é mais fundamental que racionalidade”. Ademais, “o passado adquire o estatuto de ‘história’”, “ao torna-se presente”, o que só é possível através da narrativa histórica.
      De acordo com Rüsen, atribuir “sentido” – narrar – é articular “percepção, interpretação, orientação e motivação, de maneira que a relação do homem consigo e com o mundo possa ser pensada e realizada na perspectiva do tempo”, ou seja, ao transformar o passado em presente – por meio da narração –, este se torna compreensível e, a partir dessa compreensão do presente que orienta e motiva ao mesmo tempo, pode-se, diante disso, esperar algo com relação ao futuro. A isto se dá-se o nome de narrativismo: “articulação ou manifestação de sentido”, que será histórico “se o sentido intencionado abrange um contexto narrável entre o passado [interpretado], o presente [entendido] e (tendencialmente) também o futuro [esperado]”.
      Portanto, segundo Rüsen, o paradigma narrativista ao modificar a concepção de método – que “de um conjunto de regras da produção historiográfica, ele passa a um conjunto de obras dos processos de conhecimento” – amplia, pluraliza a concepção de razão e, conseqüentemente, de racionalidade. Caso contrário, não se poderia falar em racionalidade (no singular) posto que esta se fundamenta na idéia de progresso, o qual, contemporaneamente, aparece “como catastrófico em si”.
      Isto posto, e acreditando que o Holocausto é a “mais radical e típica” “das experiências do vazio de sentido vividas no século XX”, podemos dizer que a especificidade da narrativa de holocausto está em sua capacidade de tornar “transparentes e cognoscíveis a ausência, a lacuna ou a negação de sentido” que o holocausto representava (ou representa quando se tem como “noções de paradigma em que predomine uma racionalização metodológica progressiva”). Para Rüsen, o holocausto é, por assim dizer, o argumento irrefutável contra a idéia da existência de “um significado contínuo e sem quaisquer rupturas da constituição temporal do homem e de seu mundo”. Destarte, somente por meio do paradigma narrativo, “que se realiza na plenitude do diferente”, pode-se interpretar o holocausto, e, conseqüentemente, somente o paradigma narrativo é capaz de conceder ao holocausto algum sentido ou razão.

Einstein Augusto